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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Vermelha e suculenta.

ATENÇÃO SENHORES PASSAGEIROS, O TERMINAL RITA MARIA INFORMA. LINHAS COM PARTIDA ÀS DEZOITO HORAS E QUINZE MINUTOS. EMPRESA ANJOVERDE, COM DESTINO A CARAVAGGIO, EMBARQUE NO PORTÃO B, PLATAFORMA 12. EMPRESA ITUPEGRAND, COM DESTINO A LEBON RÉGIS, EMBARQUE NO PORTÃO A, PLATAFORMA 5. EMPRESA RODA-BRASA, COM DESTINO A POMERODE, VIA GRAJUZINHO, EMBARQUE NO PORTÃO C, PLATAFORMA 17. EMPRESA PALOALTO, COM DESTINO A GAROPABA, EMBARQUE NO PORTÃO B, PLATAFORMA 11.

Passavam três minutos das seis da tarde. Tirei meu bilhete do bolso da camisa e me dirigi ao portão indicado. Passei o bilhete ao porteiro que conferiu, destacou o canhoto, me devolveu o bilhete e disse, boa viagem. Subi os degraus que davam no corredor do veículo e percorri pouco mais que meio caminho. Poltrona 23. Na medida do possível procurei me acomodar na poltrona. Aos poucos os passageiros iam se distribuindo pelas poltronas. Observava cada um que entrava no ônibus. A maioria gente pouco interessante. Um rapaz de boné, uma velhinha gorda, uma velhinha magra, um homem negro de paletó, uma mulher de meia idade com os cabelos despenteados e uma criança no colo, uma gostosa, outra gostosa, mais duas gostosas juntas rindo de alguma coisa. Um homem de quarenta anos, tão comum que não havia como descrevê-lo. Olhou seu bilhete e seguiu pelo corredor procurando sua poltrona, passou por mim e seguiu para os fundos do ônibus. Em seguida voltou, parou ao meu lado, olhou o bilhete, depois a numeração da poltrona, em seguida o bilhete novamente e disse, é aqui. Na loteria dos bilhetes rodoviários nunca ganhava uma gostosa como prêmio.

Eram seis e dezessete quando o motorista engatou a ré, manobrou o ônibus e em seguida partiu rumo a Garopaba. Passaria as próximas duas horas percorrendo trechos sinuosos e esburacados até chegar em casa. E como o bilhete não era premiado, seriam duas horas meditativas, altamente filosóficas, em que muito pensamento bom seria criado para depois se perder ao vento. Isso se não houvesse o infortúnio de ter que enfrentar algum trecho de longa fila causada por mais um acidente.

A viagem seguia já em seu quarto de hora quando o homem ao meu lado resolveu emplacar um diálogo fazendo um comentário qualquer.

- O ônibus hoje vai cheio. – Disse ele.
- É.
- Mais duas ou três paradas e vai ter gente viajando de pé.
- Pois é.
- Tomara que não tenha nenhum acidente.
- Tomara.
- Indo para Garopaba?
- Sim.
- Mora lá?
- Moro.
- Eu não, desço em Paulo Lopes. Moro lá. Sou de Concórdia, mas moro em Paulo Lopes.
- Uhm.
- Faz três anos. É de Garopaba?
- Não, de Florianópolis. Estou em Garopaba há pouco mais de um ano.
- Terra boa.
- Gosto de lá.
- Mora onde lá?
- No Ouvidor.
- Ó sim! Bela praia. Muito bonita mesmo. É uma praia muito querida. Quando desço para Garopaba sempre passo por lá. Gosto muito de lá.
- É, bonito realmente.
- Trabalha lá?
- Sim.
- O que fazes?
- Crio codornas.
- Uhm.
- É.
- Mora com a família?
- Sozinho.
- Moro com minha esposa.
- Que bom.
- Uma bela mulher. Tenho uma foto dela aqui comigo, sempre ando com uma foto dela comigo. Deixa eu te mostrar. – E dizendo isso ele abriu a bolsa que carregava no colo e puxou de lá a fotografia. – Olhe, essa é ela. – Era uma foto 15 x 20 de uma bela plantação de melancias. Olhei para ele, depois para a foto, para ele novamente e em seguida fixei meu olhar na fotografia.
- Ó sim! É uma bela mulher. Deveras. – Disse a ele.
- Não te disse! – Respondeu ele sorridente e orgulhoso.
- E essas ao redor dela? – Perguntei a ele me referindo às outras dezenas de melancias.
- Todas minhas esposas. São dezenas delas. E cada nova que nasce e cresce tomo para mim como esposa.
- Por Deus! Um harém e tanto! E me conte, são boas amantes?
- Ó sim! Sim! As melhores que já tive. Depois de seis casamentos frustrados, encontrei nelas o amor que eu buscava.
- Imagino que sim! Parecem ser mulheres e tanto!
- E são! Não tenha dúvidas disso!
- Ó não, não...
- Passei três dias na capital. Elas certamente estão morrendo de saudades de mim. A noite hoje vai ser boa!
- Opa! Muito amor, hã?
- Demais, demais! Escolho a maior e mais redonda, uma bem suculenta. Tiro do quintal e levo para meu quarto. Ponho ela em cima da cama e nessa hora sinto que ela já está quente de tesão. Quente mesmo, fervendo! Depois vou tomar um banho daqueles para ficar limpo e cheiroso para o meu amor. Rá! Pego a faca que já está esperando do lado da cama e abro uma bela fenda em um dos lados dela, tiro a tampa e ela me mostra toda aquela carne vermelha suculenta. Por Deus! Juro que depois disso não agüento mais nem um segundo e meto minha coisa dura e roxa dentro dela. Pra valer, forte! Nos amamos a noite inteira. Ufa! Que mulher! Só em pensar...
- Cara de sorte. Com todas essas mulheres complicadas que esbarramos por aí você conseguiu encontrar aquela que procurava.
- É sim, encontrei. Agora deixa eu levantar que já está perto do meu ponto.
- Certo, felicidades e boa diversão.
- Ó! Obrigado! Até mais.

Ele desceu e o ônibus partiu. Peguei meu telefone e liguei para Rosanete. “Oi... Sim, Alvarêz...Estou bem e você... Mesmo? Uau! Por essa eu não esperava... As codornas estão bem,  mas tô pensando em entrar pro ramo das melancias... Quero te ver... Sim, sim, eu sei, mas relacionamentos são assim baby... Não, prometo não gritar com você... É eu sei, mas você não pode ser tão agressiva... Claro que é, da última vez você quase que me leva a nocaute com aquele vaso de porcelana... É, eu não devia ter feito, eu sei... Ei, baby, gosto de você e você sabe disso... A maneira como você requebra, e a sua língua quente trabalhando minhas bolas... Gosto, e como gosto!... Certo, que horas?... Me espere toda nua, peladinha, de perna aberta, quero cair de boca nessa sua carne vermelha suculenta... É? Não perdes por esperar... Até.”

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Dylan, Bukowski, violão e uma dona.

Era o diabo de uma noite quente, daquelas. Era, também, a última noite da temporada de verão no Bar de Tróia, boa parte dos turistas já tinham ido embora para suas casas, o que deixou a cidade e o bar quase vazios, naquela noite. Não importava, lá estava eu e meu violão mandando ver nos clássicos de Bob Dylan, Neil Young e Alvarêz Dewïzqe madrugada à dentro.

Havia uma dona sentada lá no fundo do bar, bebendo e fumando, sozinha. Resolvi fazer um intervalo antes do programado e ir lá sentar com ela.

- Baby.
- Oi.
- Sozinha aqui no canto escuro do bar?
- Sim, te vendo cantar. Adoro Bob Dylan.
- Ele é o melhor.
- Gosto mais da tua voz.
- Baby, ele é o melhor.
- Já terminou o show?
- Não, parei para um intervalo.
- E eu já estou indo, amanhã levanto cedo para trabalhar.
- Espere mais um pouco, peça outra cerveja, fique até o final e depois a gente bebe junto, a noite ainda é jovem.

Ela fiz sinal para o garçom trazer mais uma e eu voltei para meu posto e mandei mais algumas do meu repertório, louco que o relógio batesse em 3.AM para eu desligar meu violão e ir sentar com aquela dona.

Havia tristeza em seu olhar. Ela me olhava, tragava seu cigarro e bicava sua cerveja. Qualquer que fosse a música ou vento que soprasse, lá estava ela com seus olhos grudados em mim, me convidando para largar o palco e levá-la embora.

Às 3 eu agradeci a presença das poucas moscas de bar presentes naquela noite, desliguei tudo  e fui lá sentar com ela. Ela pediu uma cerveja para mim. Bebemos e conversamos um pouco sobre a vida. Ela era quinze anos mais velha que eu, havia perdido o marida há cinco anos e a filha há um e meio. Estava nesse emprego temporário de verão e não sabia se continuaria por ali ou se voltaria para sua cidade natal. Mas tudo isso era para o dia seguinte, foi até o balcão, pediu mais algumas cervejas, fechou a conta e me carregou para o apartamento dela.

Estacionei o Do Amor bem em frente ao prédio onde ela morava. Subimos um lance de escadas até a porta de seu apartamento. Entramos. Saquei uma de suas cervejas, que ela havia gentilmente guardado no congelador de seu refrigerador, abri e mandei uma mamada daquelas, goela abaixo.

- Bukowski! – Disse ela, sorrindo.
- Como?
- Bukowski, o escritor. Você parece o Bukowski, tem esse jeitão...
- Charles Bukowski, baby, é dele que você está falando?
- Conhece?
- Ele é o melhor.
- Como o Dylan...
- Isso. – Mandei mais uma mamada, larguei a garrafa sobre a mesa e sem mais meia palavra colei minha boca na dela. Joguei a língua lá dentro e num instante estávamos jogados um sobre o outro no sofá-cama da sala.

Desespero. Era isso. A noite da celebração do desespero, pelas perdas dela, que nem o nome eu sabia, e pela minha solidão. Fútil e histérico, como o assassinato ao vivo em rede nacional e a liquidação de inverno. O inferno que nos espera em seus braços quentes e afetuosos, não só uma, mas dezenas de vezes e mortes e promessas não cumpridas. Um barquinho branco contra a luz do sol, deformando o horizonte, voltando para casa sem peixes. A galinha constipada dos ovos de ouro. O medo do sol, terrível, nos jogando na cara todas as verdades que tentamos em vão afogar, mais uma vez, na noite passada. E no fim só nos resta a heróica covardia para nos manter vivos. Uma mulher nua sobre o sofá e toda verdade sobre a humanidade.

Trepamos. Bebemos. Fumamos. Falamos todo tipo de bobagem e depois rimos de tudo. Até o sol aparecer.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Foda à crédito.

Estava lá escorado no balcão tomando meus chopps, experimentando toda a variedade de chopps da casa, e esperando que a sorte me jogasse nos braços de alguma garota.

Tinha uma banda tocando grunge. Eles davam conta do recado, mas as pessoas no bar não pareciam muito animadas. De vez em quando balançavam a cabeça pra lá e pra cá, e nada mais.

Uma menina que eu havia fodido com violência chegou com seu namorado e fingiu não ter me visto, ou não me conhecer. Queria poder fode-la de novo, mas o negócio dela não era comigo.

A banda anunciou que faria um intervalo e resolvi que era hora de cair fora. Bola, o dono do bar, amigo meu, pegou minha ficha, bateu na calculadora e rabiscou o valor total. Tirei umas notas da carteira e paguei o valor devido. Nos cumprimentamos em despedida e eu disse - Bota mais um chopp pra mim, do mais barato, por conta da casa - Bola riu, puxou um caneco da prateleira e mijou chopp gelado dentro dele. Peguei meu caneco de chopp e voltei para o balcão. Quando eu estava terminando meu chopp grátis, a banda voltou para o palco. Olhei em volta, as mesmas pessoas balançando a cabeça pra lá e pra cá. Entornei meu caneco, fui até o Bola e disse – Coloca aí pra mim o chopp mais amargo que você tiver – Bola riu e encheu outro caneco.

Kurt Cobain, Layne Staley, Ed Vedder, Scot Weiland. A banda lascava uma atrás da outra, só os clássicos, a guitarra distorcida fazia o chopp tremer no caneco. E a turma balançando a cabeça pra lá e pra cá, de vez em quando.

Eu precisava de uma foda.

- Bola, quanto foi esse chopp?
- Por conta da casa. – Disse ele, dando três cascudos no balcão.
- Hey, cara, melhor chopp da cidade. Vou nessa.
- Volta logo, Alvarêz, vamos agendar uma data pra você fazer um Rock Caipira aqui na caverna.
- É só chamar, marca aí na agenda que eu venho.
- Beleza.
- Fechou, abraço!
- Valeu, Alva, até.

Cruzei o bar, fiz sinal para o pessoal da banda e me mandei.

Entrei no Do Amor, dei a partida e eu realmente precisava de uma foda. Fui para o centro da cidade e dei uns três giros em frente aos puteiros da capital, mas nenhum parecia legal. Lembrei que lá pras bandas de Tijuquinhas, nas margens da 101, eu havia passado em frente à algumas casas com luzes vermelhas e que aquela seria uma boa oportunidade para conhecer umas casas novas. Peguei a Via Expressa e pisei no acelerador. Antes de tomar a BR parei no posto de gasolina e peguei uma verdinha pescoçuda. Saí do posto e pisei fundo pela rodovia, saquei fora a tampa da cerveja e desafiando a lei segui com uma mão no volante, a outra na cerveja e os olhos fixos na estrada.

Cruzei São José, Biguaçu, São Miguel, e lá na frente peguei o retorno de Tijuquinhas. Acelerei de volta e logo avistei as luzes vermelhas.

Parei o Do Amor em frente a casa.

Entrei.

Tinha uns caras lá, abraçados com umas meninas. Dei um giro por dentro do bar. Tocava um tecno brega na Jukebox e eu fiquei balançando minha cabeça pra lá e pra cá, me fazendo de interessado. Mas não seria ali que eu conseguiria uma foda, o lugar era pura depressão.

Caí fora. Entrei no Do Amor, acelerei na marcha-ré, engatei a primeira e peguei novamente a BR. Segui devagar pelo acostamento, logo em frente havia outra casa.

Parei numa subida, ao lado do bar, o estacionamento em frente estava todo ocupado. Entrei na casa e vi que tinha umas meninas sobrando. Tocava qualquer porcaria na Jukebox e eu balancei a cabeça pra mostrar estar animado e pronto pra diversão. Fui no balcão e pedi uma cerveja. Girei pelo salão com minha cerveja na mão, fui até a Juke pra ver o que tava rolando, mas só pra fingir interesse, eu queria mesmo uma foda. Voltei no balcão, tinha duas meninas lá conversando e rindo. Me meti na conversa.

- Babyes.
- Baby, que prazer recebe-lo aqui.
- Baby, você nem me conhece, posso ser um sujeito desagradável.
- Aposto que não.
- Aposto que você quer uma cerveja.
- Aposto que sim.
- Pede logo uma, vamos beber nós três.

A cerveja veio e eu colei na outra, que até então não havia dito nada, apenas sorria e me olhava. Era uma índia de cabelos muito longos, peitos muito grandes e coxas enormes. Puxei ela e a cerveja para o salão. Escolhi uma mesa e sentamos para um dedo de prosa.

- Baby, você é gostosa.
- Gostou de mim?
- Pode ter certeza. Quero ver o que tem aí debaixo.
- Vamos lá pro quarto que te mostro.
- Quanto é a hora?
- 100 meu e 30 do quarto.
- 100 você e o quarto, topa?
- 100 meu e 30 do quarto.
- Só tenho 100.
- Ah, que pena, tô morrendo de vontade de fazer um monte de coisas gostosas com você.
- Que coisas gostosas você vai fazer comigo?

A isso ela respondeu cochichando em meu ouvido e massageando meu pau. Eu disse. – Vamos nessa.

Fomos até o balcão e passei o cartão no crédito. 100 uma hora, 30 do quarto e 20 mais uma cerveja. 150. Olhei a hora pra não ser passado a perna. 03:41 da madruga. – 3 e 41, baby. – Eu disse a ela. – Uma hora é uma hora. – Complementei.

Pegamos uma ducha, antes. Ensaboei ela de cima abaixo, caprichei na xoxota, no rego, deixei ela bem lavadinha, bem limpinha. Nos secamos e fomos para a cama. Pedi que ela deixasse só as luzes vermelhas ligadas. Me joguei pra cima. Chupei aquela menina de cima abaixo. Ela era toda feita de carne morena, toda rígida, toda volumosa, grandes coxas, grandes tetas. Ela não perdeu tempo e se atracou no meu pau, feito uma bezerra faminta.

Desmamei ela, empurrei ela sobre a cama e cravei meu pau na boceta dela. E lá estava eu me servindo da foda que eu precisava.
Ficamos ali metendo, metendo, metendo. Uma foda daquelas, por cento e cinquenta pilas.

Eram umas 04:26 quando tirei ela do quarto e voltamos para o salão. Soltei umas notas de dois pilas na mão dela e pedi que ela escolhesse umas músicas pra gente dançar. Fui no balcão e peguei uma cerveja. O cara no balcão disse que eu não poderia ficar sem camisa no bar. disse a ele que iria no quarto pegar minha camisa. Peguei a cerveja e voltei para o salão. Puxei minha índia e dancei à vontade com ela, eu havia tido uma foda rejuvenescedora e estava cheio de energia por conta disso. Dançamos as seis músicas e estava tão gostoso que ela me convidou para passar mais um tempo com ela no quarto, por conta dela.

Fechamos a porta do quarto e demos mais uma bela trepada. O encaixe d’eu nela foi perfeito. A foda que eu precisava. Ela confessara gostar de vara, e eu metia a vara nela. Eu confessara estar precisando de uma boa boceta, e ela abocanhava meu pau com sua boa boceta.

Lá pelas tantas, quando já se podia ouvir os caminhões passando um depois do outro na BR, o dono da casa começou a bater repetidas vezes na porta do quarto. Olhei a hora, eram quase 6 da manhã.

- Temos que ir.
- Não quero parar.
- Eu também não.
- Eu durmo aqui, contigo.
- Não posso, não durmo aqui.
- Vou contigo pra tua casa.
- Não posso. Pega meu telefone, me liga mais tarde.

Peguei o número dela, me vesti e me mandei. Entrei no do Amor. O dia já estava claro. Acelerei bêbado pela BR, de um jeito que facilmente me encrencaria com os guardas.

Mas todo vagabundo tem sorte.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

O bar no final da rua.

Era uma noite quente em Garopaba e eu queria mamar umas cervejas. Preferia em casa, sossegado, mas não tinha cerveja em casa e a mercearia em frente já estava fechada àquela hora. Então não me restava outra saída, senão o bar no final da rua.

O problema do bar é que a gente corre o sério risco de cruzar com uns caras prontos para nos roubar a solidão, um desses que vem sentar ao seu lado e puxa conversa sobre qualquer assunto estúpido, esperando por sua amizade e compreensão.

Peguei o Do Amor e fui até o bar no final da rua.

Entrei no bar e caminhei lado a lado com o balcão, até a última cadeira, lá no final.

O lugar não estava cheio, uma meia dúzia de bebuns espalhados pelos cantos. Puxei a cadeira e sentei, apoiei os cotovelos no balcão e fiz sinal para o garçom, que se aproximou. – Cerveja! – Pedi.

Olhei o bar em volta, de leve, para não chamar a atenção. Reparei que havia um homem jogado no chão. Ele estava com o rosto coberto de sangue. Tinha um pouco de sangue no chão, também. Virei de volta e logo o garçom veio com minha cerveja. Sentou o copo e a garrafa bem na minha frente e olhando para o sujeito no chão puxou conversa.

- Pobre Johnny. – Disse, enchendo meu copo.
 Virei um gole.
- Levou uma surra.
 Virei mais um.
- Mexeu com a menina de um dos fregueses, e deu no que deu.
- Nada mal, um belo serviço. – Respondi.
- Não sente pena dele?
- Não.
- Ele está mal.
- É... E quem nunca esteve?
- Cara, você é frio...
- É a cerveja.
- Frio pra burro! Você não tem coração?
- Todos temos um.
- Digo, um coração piedoso. Que tenha compaixão pelo sofrimento humano...
- Andam dizendo por aí que não.
- E você, o que diz?
- Eu bebo. – Disse eu, entornando um dos bons.
– Cara, você é frio! - Disse o garçom, e virando-se para os fregueses do bar, exclamou. – Ei, pessoal, temos aqui um cara com o coração frio pra burro! – Todos pararam o que estavam fazendo e me olharam. – É, esse cara tem o coração de pedra! Acreditam que não sente nem um pingo de dó do Johnny?! – Houve um burburinho. Pude ouvir quando uma dona que bebia sozinha num canto do bar fez “Ó!”. Daí o garçom se afastou e todos voltaram a fazer o que faziam. Que dizer, não faziam muito, basicamente bebiam suas cervejas.

Levantei minha cerveja e virei uma boa mamada, goela abaixo. Matei meia garrafa. Tomei ar e matei a outra metade. Fiz sinal para o garçom, ele se aproximou. Dessa vez pedi logo duas, assim evitava ao máximo fazer com que ele se aproximasse de mim.

Estava concentrado em minhas cervejas, quando percebi que alguém sentou-se ao meu lado, dois lugares depois de mim, à direita. Não olhei, continuei concentrado em minha cerveja.

- Cara. – Disse o sujeito sentado ao meu lado, mas fingi não ouvir. Ele, então, chamou mais alto. – Cara! – Não havia outro jeito, tive que olhar. Era o tal do Johnny.
- Cara, você é frio.
- Andam dizendo que sim.
- Você tem coração de pedra...
- É.
- ... E eu não gosto de você.
- Tudo bem, não é a primeira pessoa que diz não gostar de mim. E no final das contas é mais fácil não gostar do que gostar.
- Quer dizer que não se importa que os outros não gostem de você?
- As pessoas já gastam tempo suficiente gostando da TV.
- Você é frio, cara, e me parece meio louco, também. – Daí ele se virou para os fregueses do bar e disse. – Ei, pessoal! Esse cara aqui disse que não liga a mínima se vocês não vão com a cara dele! – De novo um burburinho. E de novo um “Ó!” veio do fundo do bar. Eu nada disse, emborquei minha cerveja e dei uma mamada daquelas, melhor que a primeira. Quando terminei de mamar na cerveja o sujeito já tinha caído fora.

Na outra ponta do balcão, à direita, estava um casal, haviam recém chegado ao bar. Ele ficava dizendo coisas para ela, e acariciando o braço esquerdo dela, do punho até o cotovelo, depois descia de volta até o punho, e novamente fazia o caminho de volta ao cotovelo. Ela apenas ria e emborcava seu conhaque com gelo. Ele pedia mais e mais conhaque, não deixava o copo dela vazio um minuto. E ela ria, e ria, e derrubava o conhaque pela goela.

Voltei a me concentrar em minha cerveja. E segui o resto da noite ali bebendo, solitário do jeito de dava.

Já era bem tarde da madrugada quando paguei minha conta e saí. Na verdade o dono do bar colocou todo mundo para fora, então acabamos saindo todos juntos.

Entrei no Fusca do Amor, dei a partida, engatei a primeira e acelerei.

Logo à frente, caminhando pela calçada, encontrei o casal que estava no bar. Ele continuava dizendo coisas para ela e alisando o braço dela, e ela continuava rindo. Parei do lado deles e fiquei observando. Ela me viu e sorriu para mim, daí eu gritei para ela, - Ei, baby, sabe que você se parece com a Janis Joplin? Você é a Janis Joplin? – Ela, então, abriu ainda mais o sorriso e cambaleou em minha direção. Foi aí que o cara me olhou, e olhou para ela. – Deixa eu ir com ele, sou a Janis Joplin! – Disse ela para ele. – Janis, entre no meu carro. – Eu disse para ela. O sujeito, então, se enfureceu e bradou. – Cai fora, cara, ela está comigo! - Ela continuava cambaleando, e rindo. – Cai fora! – Gritou o sujeito.

E foi o que eu fiz, engatei a primeira e acelerei. Cheguei em casa, me joguei na cama, mas não dormi, fiquei ali em silêncio, pensando, ainda com vontade de beber cerveja.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Vicissitudes máximas.

Passava das três da madrugada, e essa mulher caminhava sozinha pela calçada. Chovia um pouco. Fazia um pouco de frio, também. Já tinha sido uma noite e tanto, aquela, mas concluí que um pouco mais de emoção não me faria mal. Encostei o Fusca do Amor na calçada e parei bem ao lado dela. Ela parou e me olhou, sem dizer nada. Entra aí, te dou uma carona, disse a ela. Ela nada disse, apenas deu a volta e parou ao lado da porta do carona. Puxei a maçaneta e abri a porta para que ela entrasse. Ela entrou e fechou a porta. Continuou em silêncio. Não me olhava, permanecia quieta olhando fixamente para frente. Ela não era nada mal, tinha lábios cheios de sangue e uma convicção compenetrada no olhar que por si só já fazia todo o restante valer a pena. Liguei o rádio, engatei a primeira e partimos.

- Baby, o que fazes sozinha na rua uma hora dessas?
- Briguei com meu marido, aquele filho-da-puta. Quis me matar com uma faca, olhe. – Ela esticou o braço direito na minha frente e pude ver um belo talho de faca. Tinha um pouco de sangue seco, também.
- Por Deus! Baby. O que você fez de errado?
- Nada. Não fiz nada.
- Mas ele quase te matou.
- Ele se deu mal, isso sim.
- Ah é?
- Consegui cravar uma punhalada naquele filho-da-puta. Em cheio, na barriga. Caiu no chão como um garotinho indefeso, gemendo de dor. Resolvi sair de casa para arejar a cabeça. Você fuma?
- Fumo. – Respondi. Ela, então, tirou um cigarro de sua bolsa e acendeu. E depois, gentilmente, pôs o cigarro nos meus lábios. Pude sentir delicadeza e ternura misturados com o sereno da madrugada. Segui dobrando esquinas. Avistei um bar aberto e encostei.

Os heróis não vêm do céu. Nenhum deles.

Entramos. O bar cheirava à dor, ou indecência, ou morte. Não sei dizer ao certo. Pedi quatro latas de cerveja. Que em seguida vieram e foram postas sobre a mesa. Abri uma, ela outra.

- Como se chama?
- Alvarêz.
- Nunca vi um nome desses. – Disse ela e seguiu entornando sua cerveja.
- Alvarêz Dewïzqe.
- Que nome é esse?
- Polonês. Meus pais eram poloneses. Dewïzqe é um sobrenome polonês. Alvarêz não, é colombiano. Antes de virem para o Brasil meus pais passaram algum tempo na Colômbia. Depois que minha mãe engravidou eles vieram para o Brasil, e como conheciam pouco daqui, resolveram pôr Alvarêz, que foi um nome que eles acharam legal.
- Você é estranho.
- Ó! Obrigado!
- Isso foi um elogio?
- As pessoas costumam me dizer isso. Eu gosto.

Ela riu e abriu a segunda. Matei minha primeira, também, e investi na segunda, também. Ela tirou um cigarro e acendeu. Em seguida pôs em meus lábios. Depois acendeu um para ela, também. Olhei o talho em seu braço, nada mal, um dos bons, uma lembrança para toda a vida. Ela poderia estar morta a essa hora e eu nem saberia. Certamente, àquela hora, havia um punhado de outras mulheres que não tiveram a mesma sorte. Um dia serei eu, e depois você; e os televisores, nem por isso, irão deixar de passar as mesmas novelas, políticos não irão deixar as falsas promessas, igrejas continuarão inchadas de preces estúpidas.

A cerveja irá perdurar até o fim dos tempos. Bote fé.

Ela pegou a lata suada e deslizou por todo o corte, para cima, para baixo. O sangue seco se misturou com a água e parecia como se o sangue tivesse brotado novamente. Fiz sinal para o garçom e ele trouxe mais quatro.

- Sangue combina com o que?
- Com fogo.
- Fogo, mesmo?
- Que combina com amor. Que combina...
- ... Com agonia e gloria.
- É. Você é legal.
- Você é estranho. E legal. Tem medo da morte?
- Não. Tenho medo da não-vida.
- Como assim?
- Deixa pra lá. Gosta de chupar?
- Hum?
- Chupar pintos?
- Nunca chupei um. Nem de meu marido. Nem de meus amantes.
- Houve muitos?
- Amantes?
- Isso.
- Sempre que meu marido me apronta alguma. Saio de casa e cato algum na rua, para me divertir um pouco. – Ela disse isso e se virou para trás numa gargalhada. Vi que seu pescoço era todo marcado com cicatrizes. Entornei um bom gole e gargalhei com ela.

Um cara levantou de sua mesa e seguiu cambaleante até o banheiro. De onde estávamos, era possível ouvir a maneira como vomitava forte, sem parar, sem parar. Depois silêncio, não se ouvia mais nada vindo do banheiro. Nem descarga, nem ninguém saindo de lá.

Estiquei-me e beijei sua boca. Ela apenas fechou os olhos e retribuiu, jogando sua língua de serpente para dentro de minha garganta. Fui até o balcão, peguei mais quatro com o garçom, paguei as doze, puxei ela pela mão e fomos para fora. Entramos no Fusca do Amor, dei a partida e seguimos. Virei à esquerda na bifurcação e segui pela estrada de terra. Eu conhecia o caminho, era o menos esburacado.  Encostei numa rua escura qualquer e me joguei para cima dela. Ela segurou minhas bolas e eu botei uma de suas grandes tetas para fora. (...). Garanti espaço e ela montou. (...). Eu vim e ela junto, no embalo. (...) Por Deus! Ela sacava do negócio.

Ainda tivemos tempos para mais uma, antes de o sol aparecer.

Guiei o Fusca do Amor até o endereço dela. Ela pediu meu número e eu inventei um número qualquer. Ela prometeu me ligar. Eu disse que seria muito bom se ela ligasse.


Não sei se o marido dela sobreviveu à facada. Abri o jornal do dia seguinte, mas pulei as páginas policiais. Fui direto aos classificados. Escolhi o nome mais bonito, Lílian, e disquei.

sábado, 3 de maio de 2014

Todo o vício do mundo

Caminhei até a farmácia, subi na balança e pensei, "que merda". Aguardei o casal à minha frente ser atendido.

- Aqui senhora, esse é o mesmo da receita, só que é mais baratinho.
- Quanto é?
- São três caixas desse, mais uma caixa desse outro. Cento e setenta e quatro reais.
- Mais vale morrer. - Intervim.
- É um trabalho, ele tem que tomar esses remédios, senão começa a falar sem parar, e não fala coisa com coisa. Não deixa eu nem o pai em paz. Ele era caminhoneiro, mas endoidou. Fomos hoje até São Pedro de Alcântara. Ele foi a viagem inteira 'desvia desse buraco, desvia daquele outro', e mexia nos óculos do pai e dizia que o óculos atrapalhava o pai a dirigir. Veja só, um rapaz de vinte e seis anos. Mas o problema todo foi a maconha, saiu por essas estradas e viciou-se em maconha. Ele mesmo diz, 'preciso fumar maconha', e pra se livrar do vício tem que tomar todos esses remédios. E não quer tomar, ficou um dia sem tomar os comprimidos e olha no que deu, fica totalmente agitado e falando sem parar, sem parar, sem parar. Já não sei o que faço, não tenho nem mais vontade de viver, sabe, tudo em função desse filho. Vinte e seis e assim, nesse estado. Tudo por causa da maconha. Agora vive dopado de remédio, senão endoida.
- Deus nos deu uma vida e tem gente que desperdiça assim. - Disse o pai.
- É. - Disse eu.
- Meu Deus, não sei o que faço. - Disse a mãe - Vou para casa dar o comprimido para ele. Boa noite.
- Boa sorte. - Disse eu a ela, e depois que saíram virei para o farmacêutico e pedi uma cartela de comprimidos para dor de cabeça. Paguei pelos comprimidos e voltei para casa. Tomei um e esperei que a dor cessasse. Peguei a garrafa e servi-me uma dose tripla de vodka. Estiquei-me no sofá, acendi um charuto e fiquei pensando em todos os vícios e viciados do mundo.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Chuva na brasilit.

Era fim de janeiro, o que batia com o fim do meu veraneio na cidadezinha ao sul da capital.

Há oito anos vinha sendo assim, passava o natal e então eu jogava minhas coisas dentro do Do Amor e acelerava pela BR 101 da capital rumo ao sul.

Naquela noite eu estava só, em casa, já passava das dez da noite e eu bicava umas verdinhas enquanto curtia o barulho da chuva na brasilit e ouvia um disco do Almir Sater.

De repente ouvi uns gritos vindos da rua, mas não dei importância.

Novamente os gritos e então resolvi conferir o que era.

Havia uma tremenda briga na casa do outro lado da rua, que ficava há uns trezentos e tantos metros distante da minha. Era um casal, ele bradava e ela gritava, “sua vagabunda” “porco covarde!”, pow paf pluft doin,”eu vou te matar!” “ahhhh! ohhhh!covarde! covarde! para! ahhhh! uhhhh”, creck  tump dump pá, ”não me bate, para, ohhh! ahhhhhh!”. O couro comia pra valer. Eu pouco conseguia ver, pois o mato do sítio ao lado dificultava minha visão. Via apenas a luz da varanda acesa e um movimento de pessoas dentro da casa. Mas o que eu ouvia não era brincadeira, o filho da puta estava surrando a mulher para valer, sem dó, e olha que ela gritava. O negócio não parava, a quebradeira era geral, parecia cena de rádio-novela dos anos cinquenta, tal era a riqueza sonoplástica do evento.

“Desgraçado!”, pensei, “vai acabar matando a mulher”. Dei mais duas bicadas na minha cerveja, entrei, passei a mão no telefone e disquei 190.

- Policia Militar de Santa Catarina, boa noite.
- Companheiro, acontece o seguinte, o maldito do meu vizinho está dando um coro daqueles na mulher, pelo que eu ouço daqui ele deve estar quebrando ela toda, e não alivia.
- Você os conhece?
- Moram aqui há pouco tempo.
- Estão brigando na rua?
- Dentro de casa e no quintal. Oras, que diferença isso faz? Venham logo ou ela não vai aguentar por mais muito tempo!
- Senhor, nesse caso não podemos fazer nada. Apenas se a vítima ligar dando queixa do agressor.
- Mas como ela vai ligar se o cara tá moendo ela na porrada e quebrando a casa toda? Manda uma viatura passar em frente a casa, pelo menos. Faça alguma coisa, homem!
- O que posso fazer é dar o telefone da polícia militar aí da sua região.
- Manda. – Peguei uma caneta e um pedaço de papel e anotei o número. Disquei.
- Policia Militar de Garopaba, boa noite.
- O negócio tá feio, amigo, meu vizinho tá arrancando o couro da mulher, uma surra daquelas.
- Onde fica?
- Aqui na Estrada Geral do Ouvidor, rua assim, casa tal.
- Estamos mandando uma viatura aí agora mesmo.
- Se apressem! – E desliguei. Voltei para frente de casa. Ela gritava e chorava e ele não aliviava, “ahhh porco covarde ahhhh” “Vou te matar sua piranha”, crash tap tap pá, “covarde para ahhhhhh” “volta aqui”, trash pow ta pá, “porco covarde” “vagabunda”. O couro comia e não aliviava. Fiquei aguardando a chegada da polícia, mas tudo o que via era que o cara estava determinado a lascar ela toda.

O tempo foi passando, nada de a polícia chegar, eu bicava minha verdinha de butuca no movimento. Aos poucos a briga foi se abrandando, até que finalmente ele cansou de bater na mulher e quebrar a casa e o silêncio se reestabeleceu, a não ser pelo som da chuvinha leve que tocava o gramado. “Foram dormir”, pensei ,“ou então o filho da puta conseguiu matar ela”. Não demorou e eu também entrei e tranquei a porta, liguei no Almir novamente e desenrosquei a tampa de mais uma verdinha.

Fiquei com aquela cena de violência doméstica na cabeça, “será que ele realmente deu fim nela?”, pensei, “talvez não, eles devem ter ido os dois dormir, amanhã vai ser um dia daqueles”, fiquei pensando, “vai que depois de tudo aquilo eles se jogaram na cama e fizeram um amor bem gostoso e...”, até que finalmente peguei no sono.

No dia seguinte a casa do vizinho estava em silêncio e sem nenhum movimento. Logo ali onde o movimento no quintal era constante durante o dia, onde a música não parava de tocar. O dia inteiro, todos os dias, aqueles vizinhos ouviam música das boas, em som alto, tanto que durante o dia eu dificilmente colocava música em casa, deixava a trilha sonora do vizinho embalar o dia. “Será que ele fodeu com o aparelho de som?”, pensei, ”não deve ter sobrado nada na sala daquela casa”.

No final do dia percebi um movimento vindo de lá. Dois homens colocavam um container de lata em cima do bagageiro de um carro. Depois de amarrarem o latão, um entrou no carro e partiu e o outro voltou para dentro de casa. Logo a noite chegou e a rua se acalmou. Fiquei lá bicando minhas verdinhas e ouvindo os grilos no quintal dos fundos.

No dia seguinte acordei e liguei o rádio no programa de notícias policiais, imaginando que pudesse ouvir a notícia de que um corpo fatiado em partes havia sido encontrado dentro de um latão nas dunas da região, mas não ouvi nenhuma notícia que pudesse dizer respeito ao que havia ocorrido na casa em frente.

Antes do almoço peguei minha câmera fotográfica para fotografar uns galos e galinhas no final da estrada, aproveitei para passar em frente a casa do vizinho. Me espantei quando a vi de pé na varanda com o telefone na mão. “Quero manicure e pedicure”, ela dizia ao telefone. Quando percebeu que eu passava me olhou. Dei uma olhada rápida nela, mas não pude perceber nada de errado, só pude notar que ela era um pedaço bom de mulher, jovem. Cheguei no final da estrada, quase na esquina com a geral, mas não encontrei as galinhas. Havia uma poça d’água na estrada de terra, mirei a câmera e disparei. Lá estava, uma bela foto de uma poça cheia de água lamacenta.

No final do dia subi em minha bicicleta e fui até o mercado comprar pão e um pé de alface, aproveitei e passei em frente à casa do vizinho. Deu que ela estava lá novamente, na varanda, dessa vez de biquíni e um shortinho jeans bem curto. Era realmente um pedaço bom de mulher. Segui pedalando com a imagem dela parada na varanda na cabeça. Senti vontade de fodê-la, meu pau ficou duro, talvez ela estivesse a fim de dar o troco no cara, uma pulada de cerca não seria nada mal, principalmente se a cerca escolhida fosse a minha, foderia ela com força se ela gostasse. A merda seria se o cara descobrisse, aí eu estaria numa enrascada daquelas, encontro marcado com o capeta. No caminho até o mercado lembrei-me de uma ex namorada que gostava que eu puxasse seus cabelos e desse tapas em sua bunda enquanto a fodia.

No início da noite passei um café e preparei um sanduiche de pão com alface e tomate. Mais tarde fui até a casa do Nico, meu vizinho, levar duas mudas de cajueiro cuja castanha eu havia plantado em caixas tetrapak e três semanas depois já cresciam vigorosas. A primeira muda eu plantara no quintal no início da semana. Explicava a ele a melhor maneira de plantar e tratar das mudas e conversa vai, conversa vem, comentei com ele sobre a cena que eu havia presenciado duas noites atrás. Nico ficou surpreso por não ter ouvido nenhum barulho, mas nada surpreso com a cena que narrei.

- Outro dia, rapaz, estava conversando com o Teco e ele me contou que os dois estão quase toda noite no bar da Bita enchendo a cara e batendo boca, brigam o tempo todo.
- Eita, merda.
- Não que justifique ele fazer o que fez, mas já estão acostumados com essa vida.
- A coisa foi feia. – Eu disse, e ficamos lá falando das coisas que acontecem e prevendo o que estava por vir, até que o assunto acabou e nos despedimos - Nico, vou nessa, amanhã pego estrada! – Apertamos as mãos e voltei pra casa.

No dia seguinte, enquanto guardava minha bagagem no Do Amor, notei que o vizinho voltara a colocar boa música em alto volume. Concluí, então, que o estéreo havia se livrado da fúria dele naquela noite. Tocava The Weight, “nada mal”, pensei, “não é que o desgraçado tem mesmo bom gosto!”. “Esses malditos são assim, demonstram boas qualidades, mas na hora que o bicho pega se mostram verdadeiros filhos d’uma puta!”, fiquei pensando enquanto dava por encerrada minha temporada de verão na cidadezinha.

Tirei o Do Amor da garagem, manobrei, atravessei o quintal e o portão de entrada. Parei, coloquei em ponto morto e puxei o freio de mão. Desci do Fusca.

Tranquei o portão e passei o cadeado. Entrei de volta no Do Amor, engatei a primeira e acelerei. Liguei o som no carro e escolhi um disco com os sucessos do Seasick Steve. Já estava na geral quando toquei o dedo no botão de desligar do som e fiquei cantarolando uma canção.

“I picked up my bag and went looking for a place to hide
When I saw Carmen and the devil walking side by side
I said, hey Carmen, come on, let’s go downtown
She said, I gotta go, but my friend can stick around…
Take a load of Fannie, Take a load for free
Take a load of Fannie and… and… and!
You put the load right on me!”

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Sexo fracionado.

Léfio buscou o banco mais à esquerda, era o que ficava mais afastado dos outros fregueses. Sentou-se e fez sinal ao do balcão para que lhe servisse conhaque com bastante gelo. Não houve tempo nem para que a bebida fosse preparada e servida, e logo uma das meninas encostou ao seu lado.

- Olá.
- Oi, eu tenho um pênis.
- Ó! Imagino que deva ter um grande e suculento pênis.
- Quanto você me paga para tê-lo?
- Não banque o engraçadinho, é você quem deve me pagar.
- Por Deus! Eu devo pagar para que você tenha o meu pênis?
- Você pega rápido a mensagem.
- Eu pago, e você o tem... Isso me soa estranho.
- O mundo é estranho.
- Você tem razão.
- Beba seu conhaque, e peça um para mim.
- Ei, rapaz! Um para ela. Com gelo?
- Sim.
- Com gelo!
- Obrigado.
- Me diga, quando devo pagar a você para que você possa tê-lo?
- Trinta pratas, boquete incluso.
- Beba seu conhaque e vamos até minha casa.

Entraram no Volks e seguiram cruzando avenidas e dobrando esquinas, até chegar ao lugar de Léfio. Desceram, depois subiram até o segundo andar. Léfio encaixou a chave na fechadura, girou, abriu e entraram. Acendeu a luz, trancou a porta, colocou boa música e buscou duas Heines. Abriu a ambas e uma deu a ela, que numa só virada matou meia garrafa. Tirou os sapatos, abaixou as calças e foi até a poltrona. Abriu os seis botões da camisa, era uma noite quente, uma noite e tanto.

- Hum, quero isso. - Disse ela, apontando.
- Cerveja? Mas você já tem uma.
- Não! - Resmungou ela, apontando mais precisamente. - Isso! Seu pau!
- Sente-se, baby, tome sua cerveja, vamos conversar, é um diabo duma noite quente, relaxe.
- Quero relaxar aí em cima de você, depois pegar meus trinta e cair fora.
- Relaxe, você terá os seus trinta, e ainda uma carona de volta para o trabalho.
- Você é brocha, ou o quê?
- Baby, se eu meter em você essa coisa aqui, bem dura, você vai precisar de umas duas noites de resguardo para se recuperar.
- Ah! É o que eu quero ver.
- Acalme-se, tome sua cerveja. Seja rápida, pois a noite é quente, ela logo esquenta. Nossa! Veja como sua!
- Deus. Certo.
- Vou buscar mais uma para mim, acabe logo a sua e trago outra para você.
- Deus. Certo - Disse e numa segunda investida derramou a outra metade garganta abaixo.
- Tome. – disse, apontando a ela mais uma garrafa.
- Sabe, primeira vez que um homem me leva para casa para ficarmos apenas 'conversando'.
- Poderia ser pior, baby. Poderiam ter mais quatro ou cinco aqui, esperando. Seria currada até pelas narinas, um em cada narina.
- Quando pensar nisso traga sua mãe, ela estará mais disposta.
- Minha santa mãezinha... Necrofilia não.
- Ó! Desculpe.
- Me conte, já houve alguma foda incomum?
- Diversas. Certa vez transei com gêmeos siameses, sabe, aqueles que estão grudados um ao outro.
- Sim.
- Aqueles eram grudados pelo traseiro, ficavam um de costas para o outro.
- Por Deus!
- Sim, e enquanto um me fodia o outro ficava perguntando 'e aí mano, como está? Como estão fazendo? Me deixa fazer um pouco agora!', então davam meia-volta e era a vez do outro.
- Uma foda e tanto.
- É, revezamento uma por dois. Acho que foi isso.
- Certa vez fodi uma puta, ela tinha só uma das pernas. Céus, como foi difícil, acabava sempre caindo para o lado. Não tinha apoio, entende...
- Ah, sim...
- Pendia sempre em direção à perna faltante, e o pênis escorregava para fora. Acabamos improvisando. Novas posições e tal.
- Porque você chama isso de pênis?
- Ah, desculpe, a pica. Ou pau. A vara... Como preferir.
- Gentileza sua.

Léfio foi até o banheiro e parou de pé em frente ao vaso sanitário. Enquanto mijava observava uma pequena papa-moscas que estava no teto, bem sobre sua cabeça. Havia também um mosquito e a aranha estava bem perto dele, pronta para o bote. "ataque, garota!" disse Léfio. Nisso o mosquito bateu suas asas e partiu. A papa-moscas virou-se e caminhou até o encontro do teto com a parede e se escondeu. Léfio sacudiu, guardou, puxou a descarga e voltou para sala.

- Me diga, quanto tempo temos?
- Mais vinte minutos. Ainda acho que você é brocha. Não pode, me traz aqui e só quer conversar.
- Que diferença faz? Você terá seus trinta, é o que importa para você.
- Você poderia ter ficado lá na casa, sentado tomando seu conhaque, conversando com o garçom.
- É.
- Ó, conhaque. Sempre me ataca a barriga. Com licença.

Ela levantou-se e foi até o banheiro. Da sala Léfio pôde ouvir ela fazer pum. Aproveitou e fez o seu, também. Do outro lado da rua, evangélicos entoavam cânticos. Rezavam para um Deus que não conheciam, buscando uma passagem menos dolorosa possível. Léfio sempre se imaginava por debaixo daqueles cabelos compridos, levantando aquelas saias que iam até o tornozelo, e descobrindo o templo sagrado.

A porta do banheiro se abriu. Ela veio e sentou.

- Quanto tempo temos?
- Mais onze minutos.
- Se apresse! Tome sua cerveja e vamos. Não quero pagar a fração.
- Vamos.

Léfio abotoou a camisa, vestiu as calças, colocou os sapatos e desceram até o Volks. Era uma noite bela e estrelada. Quente, nem mesmo a brisa refrescava. Deu a partida e seguiram.

- Baby, tenho algo se mexendo aqui no meio das pernas. Se mexendo por você.
- Hum, ops, vamos ver.
- Venha, monte enquanto dirijo. Faltam poucos minutos!
- Assim... Mais para cá.. Espere... Preste atenção no trânsito... Assim, na mira... Ah uhmmm... Seu pênis, enfim!

Chegaram ao destino três minutos atrasados. Ela puxou da bolsa uma pequena calculadora e começou a digitar. "trinta por sessenta dá cinqüenta, multiplicado por três dá um e cinqüenta, somado com trinta é trinta e um e cinqüenta". Léfio puxou três notas de dez, mais duas moedas de cinqüenta e outras duas de vinte e cinco e entregou a ela. "Aí está, o que te devo por ter tido meu pênis", disse Léfio. Ela pegou o dinheiro, saltou do Volks e entrou. Ele saltou, fechou a porta e seguiu o mesmo rumo.

Léfio buscou o banco mais à direita, era o que ficava mais afastado dos outros fregueses. Sentou-se e fez sinal ao do balcão para que lhe servisse conhaque com bastante gelo.

domingo, 13 de outubro de 2013

Amor à crédito.

Era por volta da meia-noite. Estávamos aqui em casa e demos uma trepada, das boas. Mas depois levei ela em casa.



Lembro que depois da trepada fui até o refrigerador e saquei outra cerveja, ela me disse, “bêbado”, e eu perguntei  ”bêbado por quê? “, “você já está na quarta cerveja”, “nem comecei”, “você vai me levar bêbado em casa”,”tanto faz”, “tanto faz o que?”,”o que você pense, ou o que qualquer um pense, meus ouvidos já estão fartos”. Daí ela me abraçou e ficou assim comigo por vários minutos. Depois disso pediu que a levasse para casa.

Levei ela, voltei e terminei de beber minhas cervejas de bêbado.

Certa vez alguém disse que o amor é um cão dos diabos.

De bermuda, chinelo e sem cerveja, decidi vestir minha jaqueta de inverno, descer até o Do Amor, e ir atrás de mais cerveja de bêbado.

O tanque do Fusca estava no sufoco. Girei a chave na ignição, aqueci o motor, liguei o som e sintonizei uma estação. Acendi os faróis e fiquei olhando o ponteiro colado no vazio. Saí da garagem. Desci a Manoel Loureiro até a Leoberto Leal e virei à esquerda.

Encostei no primeiro posto, “tem cerveja?”, “sim”, ”das de bêbado”, ”sim”, “ aceita crédito? ”, “não”.

Engatei a primeira e toquei em frente. Rodei mais umas centenas de metros até chegar no posto seguinte, “gasolina, aceita crédito? ”, “aceitamos!”, “a conveniência está aberta? Preciso pegar umas cervejas de bêbado!”, “fecha meia-noite, senhor”. Pensei um pouco, engatei a primeira e toquei em frente.

Avistei mais um posto e ameacei encostar, mas tinha uma viatura da polícia parada, abastecendo. Nem pensei. Acelerei, engatei a terceira e segui em frente.

Fiz a volta no trevo de Barreiros e passei reto, já que o posto logo em seguida, depois das 23, não servia cerveja de bêbado.

Segui pela marginal da 101 até o posto onde eu sabia que noite e dia encontraria minha cerveja, de bêbado, e a gasolina.

Deu que há uns cem metros do posto o tanque do Fusca secou. Por sorte vínhamos no embalo, loucos por gasolina comum e minhas cervejas de bêbado. Botei em ponto-morto e desliguei a ignição, suave ele subiu a rampa do posto e gentilmente se posicionou em frente à bomba de gasolina. “Trinta pila de comum”, pedi ao frentista.

Enquanto o Do Amor bicava sua gasolina, fui até a loja de conveniências e peguei umas sete pescoçudas, dessas cervejas de bêbado, ou cinco, não tenho certeza. Paguei tudo no crédito e me mandei de volta.



Agora vou abri outra, daquelas, e pôr um disco ao vivo do Neil Young.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Cabelos vermelhos.

Não tinha os cabelos vermelhos como imaginava Nelson. Uma mulher pouco atraente. Mas pelo menos os cabelos poderiam ser vermelhos, Nelson não resistiria aos cabelos de fogo. Para ele nada mais fazia diferença numa mulher se os cabelos fossem vermelhos.

Recebeu a ligação dela numa noite qualquer. Ela disse que o havia visto num recital de poesia alguns dias antes, que sua poesia poderosa a havia tocado profundamente e que de alguma forma conseguira o telefone dele. Dizia ao telefone que queria vê-lo.

- Bebe cerveja?
- Bebo.
- Lê Dostoievski?
- Leio.
- Já comeu lagosta numa noite estrelada de verão?
- Nunca.
- Já esfaqueou alguém?
- Quase.
- Quase? Bem, nem tudo é perfeito. Tome um ônibus e venha me ver.
- Tenho condução própria.
- Como preferir.

Nelson correu até a geladeira para conferir o estoque de cervejas. Tudo em ordem. Colocou um disco do Frank Sinatra, acendeu um incenso, abriu uma cerveja e jogou-se no sofá.

Duas horas depois o blin-blon da campainha. Levantou-se e foi até a porta. Mal abriu e lá estava ela grudada em seu pescoço, menos mal, ao menos Nelson pode esconder a indisfarçável decepção. Não tinha os cabelos vermelhos como imaginava Nelson. Uma mulher pouco atraente. Mas pelo menos os cabelos poderiam ser vermelhos, Nelson não resistiria aos cabelos de fogo. Para ele nada mais fazia diferença numa mulher se os cabelos fossem vermelhos. Apontou a ela o sofá na sala, "sente-se, vou buscar cerveja para nós" "adoro cerveja!". Correu até a cozinha e pegou uma faca, a mais afiada, partiu algumas rodelas de salame e cebola sobre uma tábua, pegou duas cervejas e seguiu até a sala. "Caso tenha fome", disse, colocando a tábua ao alcance dela. Girou a tampa das duas garrafas e passou uma para ela.

- Ródia deveria ter apunhalado a usurária?
- Por que não?
- Foi assassinato!
- Sim! Somos todos assassinos em potencial. Todos nós, de alguma forma, acabamos por matar alguém algum dia, não há nada demais nisso. Ele apenas fez o que julgou mais correto.
- Já apunhalou alguém?
- Sim.
- Ó! Como foi?
- No desjejum. Depois me limpei e saí para o trabalho.
- Você me atrai.
- Imagino que sim.
- Posso levantar minha saia para você?
- Pode ir buscar mais uma cerveja para mim. E busque uma para você, também. Vamos nos embebedar antes.

Cabelos não-vermelhos, uma mulher minguamente interessante. Nelson não tinha nenhum desejo naquela noite, senão tomar suas cervejas e ficar só. Mas tinha aquela mulher ao seu lado, querendo arrancar-lhe uma foda. Não há nada mais por hoje, além de uma boa noite de sono, disse Nelson, taxativo, vamos nos deitar e amanhã pela manhã você vai. Foram até o quarto e deitaram juntos na cama.

Nelson queria dormir, mas a bunda roçando sua perna foi o que bastou. Jogou-se para cima dela e lançou a língua quente para dentro de sua boca. Lambeu-lhe os dentes, o céu da boca, a língua, os lábios, o pescoço, os seios. Em seguida subiu de volta e entrou.


Acordou nauseado. Foi até o banheiro lavar-se e nem lembrava da mulher que havia dormido ao seu lado. Quando voltou ao quarto ela estava de pé o esperando de braços abertos. Não tinha os cabelos vermelhos como imaginava Nelson. Um crime... Uma mulher pouco atraente. Mas pelo menos os cabelos poderiam ser vermelhos, Nelson não resistiria aos cabelos de fogo. Para ele nada mais fazia diferença numa mulher se os cabelos fossem vermelhos. Ela avançou na direção dele intencionando um beijo quente como o da noite anterior. Nelson se esquivou, arrependido da noite anterior. Que merda que fiz! Pensou. Correu até a cozinha, voltou, e em seguida fez o que fez por julgar o mais correto. Depois desjejuou, limpou-se e saiu para o trabalho.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Que Deus resguarde os violadores de moças evangélicas puras.

Dividia esse apartamento no centro da capital com um camarada, e não havia como encontrar lugar pior que aquele. Um moquinfo repleto de mofo e umidade, o aluguel mais barato da cidade. O contrato estava por vencer e decidimos que cada um tomaria seu rumo. Seria legal, pensava eu, mudar de lugar, encontrar um lugar bonito e arborizado, num bom bairro. Uma bela casa, bem arejada, com sol pela manhã e pela tarde. Flores para regar e vizinhos sorridentes para cumprimentar.

Não demorou até que ele conseguisse um lugar para morar. Mas estava difícil combinar o lugar que eu desejava com os proventos que me sobravam para o aluguel. Com o contrato do aluguel no centro por vencer eu corria contra o tempo, não haveria como prorrogar o contrato por mais alguns dias, seria mais um ano ou nada.

Vasculhei os anúncios de aluguel até que bati com um que parecia legal. BOA CASA, NUM BOM LUGAR, POR UM PREÇO LEGAL. Anotei o endereço e no dia seguinte fui visitar o lugar.

Havia uma ladeira incrivelmente íngreme e pela numeração a casinha ficava lá no topo. Seria deveras complicado conciliar a bebida com toda aquela subida. Alcancei o número indicado e bati à porta. Uma dona de idade bem avançada veio me atender.

-    Olá, boa tarde, é sobre o anúncio de aluguel.
-    Ó sim, temos uma casa para alugar, venha comigo que vou te mostrar. – Ela veio para fora, fechou a porta e saiu para rua. – Fica ali mais adiante. – Disse, apontando para o alto do morro. Subimos mais algumas centenas de metros até alcançar a casa para alugar.

Era uma casinha miúda, de um cômodo mais banheiro e uma pequena cozinha. Não era uma casa nova. Por fora a umidade havia enegrecido toda a parede e o limo cobria a calçada em frente à porta de entrada. Por dentro uma tinta azul envelhecida dividia as paredes com lascas de reboco descascado e rachaduras. Havia mobília. Uma cama de casal, um guarda roupas, uma mesa com duas cadeiras, fogão e geladeira enferrujados. A janela da frente não abria, estava emperrada. A fechadura da porta de entrada não fechava direito. A descarga do banheiro funcionava bem e o chuveiro era de água quente. Combinamos o preço e ainda me sobraria alguma coisa. Já havia esquecido aquela história de sol, flores e vizinhos sorridentes. Adiantei um mês de aluguel para a dona, peguei as chaves (um gesto simbólico já que a fechadura da porta de entrada não funcionava) e voltei para o apartamento do centro para arrumar minhas coisas.

Saímos no mesmo dia. Levei as chaves da antiga morada para o dono do apartamento e “pt saudações!”.

Entrei na nova morada no início da noite. A proprietária havia prometido que iria fazer uma faxina no lugar e realmente estava tudo em ordem quando cheguei. Desfiz minha mala e arrumei meus pertences. A cama estava arrumada e coberta com lençóis limpos. Decidi deitar e me esticar um pouco. Liguei o rádio e me joguei sobre o colchão, mas o negócio não saiu legal. Senti uma pancada nas costelas que me custou uma dor daquelas. Virei-me e passei a mão sobre o lençol. Diabos! Havia um buracão no colchão, grande, bem no meio. Nada fácil ter que dormir todas as noites sobre aquele colchão deformado. Só funcionava mesmo quando a cuca estava molhada de cana e eu caía desmaiado sobre a cama.

Não era apenas isso. As baratas dominavam o lugar. Havia várias delas por todos os cantos, dentro das gavetas, debaixo da cama, na porta de entrada. As que eu conseguia matar já não me dava mais nem ao trabalho de varre-las para fora. Deixava-as ali mesmo, esbranquiçando com o tempo. De madrugada era uma festa, eu enlouquecia de bebidas, dançando às sinfonias de Erik Satie, cerceado de baratas que se juntavam em ciranda à minha volta, comungando sob sombras de velas insinuantes.

Havia também as pacientes lesmas que seguiam seu caminho pelo meio do cômodo. Nunca tive coragem de matar uma daquelas, apenas deixava que seguisse seu caminho. Lacraias e centopéias, também. Ratinhos eu nunca vi. O único maribondo que se arriscou em invadir nosso lar rodopiou bonito quando grudou na teia que a aranha armou entre a perna e a quina de minha cama. Até que foi valente aquele maribondo, lutou até o fim, mas o fim veio ali mesmo, não teve chance.

Certa noite os cupins habitantes da porta do banheiro resolveram criar asas e foi um deus-nos-acuda, aqueles bichinhos voadores tomando todo o cômodo, não havia como dormir, nem como dançar, nem mesmo beber em paz. Eram milhares deles. Na verdade eram milhões, uma invasão sem precedentes. Grudavam nos cabelos, entravam nas narinas, por dentro das calças... mordiam minha bunda. No dia seguinte tirei a porta do banheiro fora (morava sozinho mesmo e não havia necessidade dela ali) e me livrei dela e de seus habitantes.

Até um pé de feijão se encorajou em nascer de dentro do ralo da pia do banheiro. Nunca havia visto nada igual aquilo. Ele veio sem medo, se desenvolvendo verde e vistoso. Tive todo o cuidado para manter aquele broto milagroso que vinha de dentro do ralo da pia do banheiro. O danado até que cresceu, tomou forma. Mas certo dia abri a torneira com força exagerada e o coitado se partiu em dois. Lamentei. Gostava daquele pé de feijão. Era um pé de feijão bem maluco e eu me orgulhava dele por ali. O toquinho que restou eu arranquei, joguei no vaso e dei descarga. Não queria ficar guardando lembranças.

Era tudo legal apesar de não ser.

Foi um sábado. Não havia nada de promissor programado para o restante daquele dia, então resolvi descer até o mercado e pegar alguma bebida para passar a noite. As subseqüentes noites solitárias de um rapaz jovem, de boa formação, bem cotado entre aqueles de seu meio, mas que não esperava muita coisa da vida a não ser beber e esbarrar com qualquer pirada disposta a uma noite de algum sexo e muita bebida. Madrugadas nebulosas desprendidas do sentido das coisas palpáveis, um acontecimento exterior, onde o corpo pequeno dá espaço ao grande espírito remetido a planos disjuntos onde os sentidos percorrem e se encontram por correntes elétricas aurais.

*

Ela tinha os cabelos longos e cacheados. Caminhava na calçada de tênis e roupas de ginástica, esbanjando juventude. A negrinha mais saborosa que um rapaz limpo, educado e de dentes brancos poderia conseguir. Caminhei por um momento seguindo ela a certa distância, desejando aquele corpo saudável, sonhando com a quantidade absurda de sorte que eu deveria ter ao meu lado para conseguir uma daquelas. Alcancei o mercado e entrei. Olhei o corredor das bebidas, estudei todas as garrafas sobre as prateleiras, olhei a origem de cada uma daquelas, só por curiosidade. Escolhi um conhaque de gengibre, e uma garrafa de vinho. Paguei pelas duas e tomei a rua pelo caminho de volta para casa.

A mesma garota dos cabelos longos e cacheados fazia o caminho de volta. Queria poder comer aquele rabo. Uma única foda, quente e forte, de quatro, segurando pelos cabelos dela e metendo com toda força possível. Apertei o passo e a alcancei. Ela me olhou, mas o que não entendi foi que assim que olhou ela me sorriu. Sorri de volta para ela e emendei qualquer conversa. Seguimos conversando por todo trajeto de volta. Procurei concordar com tudo que ela dizia, procurei ser gentil, educado, demonstrar bom gosto e boa formação (acadêmica, familiar, profissional e espiritual. Sabia que toda aquela literatura um dia serviria para alguma coisa). Estávamos nos aproximando do pé do morro da rua onde eu morava. Falei do dia quente e como seria bom poder revê-la mais tarde para poder continuar a promissora conversa. Ela me deixou o número de seu telefone que preferi guardar de cabeça, tentando impressiona-la, dizendo que guardava números de telefone em minha cabeça com facilidade.

*

Subi para casa e aguardei ansioso pelo encontro com a sorte grande. No início da noite fui até um telefone público e disquei o número dela. Um sujeito atendeu, mandou um “alôôôu...” maloqueiro arrastado. Perguntei por ela e ele nada disse. Ficou em silêncio um tempo. Depois virou para alguém junto dele e perguntou se morava alguém ali com aquele nome. O outro pensou... pensou... e com sua voz de maloqueiro chapado de maconha respondeu “não mora aqui nããão”. O firmeza voltou pro gancho e me disse o que o gente boa já havia dito. Desliguei. Merda. Matutei um pouco. Resolvi, então, usar o mesmo número novamente, mas com os números invertidos. Tocou. Alô? Era ela. Reconheci sua voz. Ufa! Conversamos por algum tempo. Ela continuava disposta a me encontrar. Combinamos local e hora. Voltei para casa, tomei o melhor banho dos últimos meses. Esfreguei tudo muito bem para ficar bem cheiroso. Vesti uma camisa legal, vesti as calças e calcei os sapatos. Penteei os cabelos e me fitei. Estava realmente bem aparentado. Nove
horas desci a ladeira e fui ao encontro dela no local combinado. Ela demorou uns cinco minutos. Me deu um beijo no rosto e falou de um bar legal bem perto dali. Aceitei a sugestão e fomos até lá.

Pedimos cerveja. Ela era de uma família de várias irmãs. Seus pais moravam no interior do estado, eram agricultores. Ela e suas irmãs vieram do interior para a capital para estudar e em busca de melhores condições de vida (a velha ilusão). Ela era a mais nova das cinco... ou seis. A única que não era evangélica. Não acreditava em religiões, e era até mesmo um pouco cética em relação a existência de Deus e Jesus Cristo. Havia um clima de constante tensão no relacionamento com sua família. Era como uma ovelha negra. Conversamos por muito tempo e descobrimos muitas idéias em comum. Ela me falou de outros rapazes com quem havia tentado se relacionar, mas que fugiram dela, dizendo que ela era louca, desmiolada, uma pervertida desequilibrada. Aquilo me acertou como uma flechada. Me senti quase apaixonado por aquela louca desmiolada desequilibrada. Ela falava das coisas da vida e do universo com a facilidade de quem não se importa em não ser compreendida. No mundo dos normais aquela menina era louquinha mesmo e eu estava terrivelmente interessado nela.

Depois de algumas cervejas e muita conversa ela virou-se para mim e disse, “vamos lá em casa, minhas irmãs não estão em casa e tenho uma garrafa de champagne!”. Claro que sim! Pagamos as cervejas e fomos para a sua casa.

Ela ligou o rádio e foi até a cozinha desarrolhar a champagne. Sentei no sofá da sala e esperei por ela. Um minuto depois ela voltou com a garrafa e uma caixa de bombons. Sentou-se ao meu lado e não se fez de rogada, entornou um belo gole da bebida direto do gargalo. Ela tinha estilo e personalidade. Me passou a garrafa e eu tomei o meu gole. Em seguida pus a garrafa de lado e colei minha boca na dela para o primeiro beijo. Uma delícia. Puxei o corpo dela contra o meu. Magrinha, nem uma sobra. Ela se levantou e me pegou pela mão. “Venha comigo, vamos para o meu quarto, minhas irmãs logo chegam da missa e não quero que nos vejam aqui. Aquelas crentes vão ficar buzinando no meu ouvido e não vai ser bom”. Peguei a garrafa e ela a caixa de bombons e fomos para o seu quarto. Ela levou o som da sala para o seu quarto e ligou sobre uma cômoda. Não ligou a luz, deixou que a luz da rua fizesse sua parte, um pouco de iluminação, entrando pela janela, o suficiente. Espalhou algumas almofadas pelo chão e se jogou sobre elas. Ela, então, disparou numa gargalhada sem fim. Seu corpo tremia-se todo, e aquela gargalhada ecoava por toda a casa. Fiquei de pé assistindo e achando graça da cena. De repente ela cessou e me olhou, esticou seu braço em minha direção e sorrindo, disse, “vem cá”. Deitei ao lado dela e nos beijamos. Era quente aquela noite com a ovelha negra. Ela era quente, sabia esquentar. Abri sua blusa e pus seus peitinhos para fora. Mamei nos dois e ela agarrou minha vara. Trabalhamos um no outro até que num momento seguinte eu estava com ela de quatro na minha frente, segurando seus cabelos e metendo naquela bocetinha molhada com força e gosto. Pulamos para sua cama e continuamos. Segurava seus cabelos longos e cacheados com uma mão e sua cintura com a outra. Escorregava o negócio para dentro e vlupt vlupt, uma delícia.

Estava me divertindo naquela pretinha desmiolada. Ouvi quando a porta da casa se abriu e em seguida ouvi vozes femininas. Continuei metendo naquela louquinha. Era a bocetinha mais danada que havia comido em muitos meses, rebolava em minha pica que era coisa de louco. Eu fazia com força porque era mais gostoso ainda, ouvir a cama de madeira fazendo toc toc toc. Puxava a danada e beijava em sua boca. E curvava e mamava em seus peitinhos. Ela gemia, gemia, gemia. A gente suava. Como a gente suava.

A trepada prosseguia boa, quando alguém bateu à porta.

-    Abra a porta... quem está aí com você?! - Ela pulou da cama e foi até a porta.
-    Não me incomode! Estou sozinha! Não tem ninguém aqui comigo!
-    Ouvimos o barulho, tem alguém aí com você sim! Abra a porta!

Ela virou-se para mim e disse. – Se esconda no banheiro, atrás da porta! Fiquei quieto atrás da porta que eu dou um jeito aqui.

Havia um banheiro no quarto dela e corri para lá. Me escondi atrás da porta e fiquei em silêncio no escuro. Ouvi quando ela abriu a porta.

-    Quem está aí contigo?!?!
-    Ninguém! Eu já disse! Ninguém! Está vendo alguém aqui?
-    Onde ele está? Eu sei que tem alguém aí contigo!

Permaneci quieto atrás da porta, nu de pau bem duro, ouvindo a discussão das duas irmãs. Não seria nada bom se ela me descobrisse escondido atrás da porta do banheiro.

A irmã percorreu todo o quarto e em seguida entrou no banheiro. Estava escuro. Meu pau duro olhava para ela, mas por sorte ela não olhou em nossa direção. Saiu do banheiro, mais conformada, resmungou alguma coisa e a porta bateu. Voltei para o quarto e nos atracamos novamente. Aquela boceta era louca, quanto mais eu metia mais ela gostava. Tunc tunc tunc! Ó! Ó!

Abracei ela e puxei, colei suas costas ao meu peito e pedi, “rebola, rebola… assim… mais forte!”. Ela rebolava e gemia e era uma cadelinha louca no cio e eu um bêbado sortudo que certamente não teria uma outra daquelas em meses, e estava aproveitando tudo o que podia e tirando todo o atraso. Ó como é bom! Ó como é bom!

A gente se comia com gosto, força e muito desejo. Uma trepada que certamente deixaria energia perdurando por séculos. Deus e o Diabo, os anjos e deuses gregos, figuras mitológicas, Jesus Cristo e Maria Madalena... todos comungavam em exorbitâncias sexuais naquele momento. Os astros em disparada pelo cosmo. Supernova.

Deitamos sobre as almofadas, nos beijando e relaxando. A música era boa. Derramamos mais um pouco de champagne e voltamos a nos apertar. Logo eu estava com o negócio duro de volta e louco para comer a louquinha novamente. Num movimento encaixei. Uma trepada louca. Quase insana. Insana. Não sabia o que um bêbado perdido e fracassado fazia ali com um pedacinho daqueles, mas nem me interessei em perguntar, também. Voltamos para cama e tunc tunc tunc! Tudo outra vez.

Lá de fora, de repente, cânticos de oração a Cristo ecoavam pela sala e atravessavam a porta do quarto. “Que o espírito do mal se afaste desse lar! Que Deus Pai Todo Poderoso proteja essa casa do mal que aqui habita nessa noite...”, coisa do tipo. Eu continuava comendo a doidinha. Não queria perder aquilo por nada nesse mundo. As preces se intensificavam do lado de fora. A certa altura do negócio achei que as crentes iam invadir o quarto com crucifixos na mão, avançar em minha direção e cravar a imagem de Cristo crucificado em meu peito. Imaginação fértil de bêbado. Um olho na bocetinha quente e outro na porta.

Seguimos sem perder o ritmo por mais algum tempo. Impossível dizer ao certo quanto, quando se perde a noção de tempo e espaço. Arremessados a um novo plano onde sozinhos eu e ela criávamos todo um novo universo de luz.

Foi uma noite boa daquelas. Aquela garotinha havia me oferecido uma noite fantástica. Era tarde, muito tarde, a madrugada avançava. Ela disse que era hora de eu partir. Ela me agradeceu pela noite, pela companhia, por tê-la comido com tanto gosto. Ela me disse que eu era louco, e que gostava de mim por isso.

Vesti minha roupa. Ela abriu a porta do quarto e só havia silêncio e escuridão. A luz da rua, que entrava pela janela, atravessou o quarto e chegou até a sala. Havia três moças deitas no chão sobre colchonetes. Permaneciam dormindo. Fui passando entre elas cautelosamente em direção à porta da sala. Eram todas jovens e saudáveis. Uma delas estava sem o lençol por cima do corpo. vestia apenas camiseta e calcinha. Era uma calcinha branca, pequena, trabalhada com rendas. Parecia um anjo, pura, intocada. Abaixei-me ao lado dela, com todo cuidado e silêncio. Tão angelical que me sentia purificado ali ao lado dela. Minha putinha louca apenas olhava da porta do quarto, interessado no que eu estaria disposto com aquele gesto. Escorreguei minha mão pela beiradinha da renda, senti seu calor, sua energia... então pedi a Deus resguardo. Cheguei bem perto, respirei fundo e inalei seu calor.

Levantei-me depois disso. Fui até a porta, acenei para ela e ela da porta do quarto me acenou de volta. Ganhei a rua, o sereno resfriava a noite. A cidade estava deserta, ninguém nas ruas. Quanto mais caminhava, mais frio eu sentia. Pus as mãos nos bolsos e apertei os passos. Tinha uma garrafa de conhaque me esperando em casa.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Não a melhor forma de passar um domingo.

Era uma tarde de domingo e algo fantasmagórico me assombrava. Não sabia o que realmente me punha naquele estado. Mas estar de ressaca naquele apartamento vazio e silencioso, às vésperas de mais uma longa semana de trabalho, sentindo o ar frio da rua que entrava pela janela, criava em mim uma estranha sensação de fim dos tempos (fim para mim, pelo menos).

Vomitei mais um pouco, peguei um João Antônio e desci até a praça para tomar ar puro. Dei uma volta inteira na praça indeciso em qual banco me sentaria, indeciso até mesmo se ficaria na praça ou faria outra coisa qualquer que ainda não sabia o quê.

Depois de completar uma volta inteira na praça, caminhei mais um pedaço e fui me sentar na escadaria da catedral metropolitana. Abri o João Antônio em uma página qualquer e antes que começasse a lê-lo percebi pelo canto dos olhos que minha calça estava toda amassada. Deixei o João de lado e estudei melhor minha calça, também minha camisa e foi só então que lembrei que a roupa que estava vestindo era a mesma com a qual havia saído na noite anterior, e que havia dormido e acordado com ela e que não havia vestido outra desde o dia anterior.

Levantei e caminhei de volta em direção à praça. Os bêbados e mendigos se espalhavam por lá, como de costume. E da forma como me encontrava parecia ser mais um deles, só não estava encardido como eles. Fiz uma caminhada pela praça, a fim de bombear ar puro para meus pulmões. A sensação de fim dos tempos já havia se dissipado, só precisava, mesmo, de uma boa refeição naquele momento, já que a última também datava do dia anterior. Não tinha nada do que comer em casa, e também não tinha dinheiro nos bolsos. Concentrei-me no ar que entrava pelas narinas tentando me convencer do quanto nutritivo era aquilo. Seguia absorto nesses pormenores quando me deparei com uma mocinha sentada em um dos bancos da praça. Me aproximei e sentei ao lado dela. Olhei o piercing no seu nariz, depois estudei seus seios e finalmente fiz um apanhado geral dos pés a cabeça, e nada mal. Virei a capa do João Antônio e fingi ler o que havia na orelha. Só fingi, porque minha cabeça estava tomada pela moça sentada ao meu lado. Percebi pelo canto dos olhos que ela me olhou. Fingi estar concentrado na orelha do João Antônio e deixei que ela me olhasse. Assim que ela deixou de me olhar, olhei para ela novamente e para seu piercing.

- Não dói? – Perguntei. Ela me olhou e completei. – Colocar esse negócio no nariz?

Ela sorriu e respondeu. – Não, eles passam um spray anestésico e não se sente nada.

- Gosto de garotas que usam um desses no nariz, ou na sobrancelha, ou no umbigo. Da um toque de classe. – Ela sorriu sem dizer nada e eu continuei. – Como se chama?
- Melissa.
- Mora aqui no centro?
- Moro nos Ingleses, estou esperando um amigo me ligar, ele mora aqui no centro e combinamos de nos encontrarmos aqui na praça. Mas já estou esperando há uma hora e ele ainda não me ligou. Deve ter esquecido de mim. Droga. – Ela fez uma pausa, tirou um cigarro da bolsa e acendeu. – E você, como se chama?
- Alvarêz. Dewïzqe.
- Como?
- Alvarêz Dewïzqe.
- Nunca ouvi um nome como esse. Uhm. Aceita um cigarro?
- Não, obrigado.
- Onde mora?
- Aqui no centro, bem ali. – Disse eu, apontando para a rua onde ficava o prédio que eu morava. – Num prédio antigo ali na Anita Garibaldi.
- Uhm. Com quem você mora?
- Hoje estou sozinho. Vamos até lá conhecer meu apartamento.
- Claro que não! Eu nem te conheço. E se você for um estuprador e quiser me violentar?

Olhei seus seios e depois suas pernas. Ela vestia uma saia jeans bastante curta que exibia bastante das coxas grossas. – É, pode ser que eu seja. – Disse a ela.

Conversamos por um bom tempo. Ela me contou que era de algum lugar distante que não me recordo. Morava nos Ingleses com uma irmã e o cunhado. Pelo que entendi não trabalhava nem estudava. Talvez mais uma vadiazinha trocando foda por dinheiro. Até ensaiei perguntar a ela quanto cobrava para ir comigo até meu apartamento, mas desisti.

- Qual sua idade?
- Dezoito. – Disse ela. – E você?
- Eu tenho vinte e seis. Você tem coxas bem grossas, gosto delas.

Ela olhou suas coxas e sorriu. – Obrigado. – Em seguida levantou o rosto e olhou para mim. – Foi mentira minha, não tenho dezoito, tenho quinze anos. – Ela esperou algum comentário meu, mas apenas sorri. – Droga. Acho que meu amigo me esqueceu.

- É, parece que sim.
- Vamos até seu apartamento? Estou menstruada e preciso trocar meu absorvente.
- Vamos. – Levantamos e saímos caminhando em direção à Anita Garibaldi. Subimos o elevador e entramos no meu apartamento. Ela olhou em volta, curiosa e em seguida me perguntou onde ficava o banheiro. Apontei, mostrando a direção. Ela caminhou até o banheiro, entrou e fechou a porta. Pude ouvir o ruído do trinco trancando a porta. Larguei o João Antônio sobre o sofá, liguei o rádio e pus música.

Alguns minutos se passaram até que ela saísse do banheiro. Vários minutos, na verdade. Não sabia que para trocar um absorvente era preciso todo aquele tempo. Pensei que talvez ela pudesse ter aproveitado para aliviar os intestinos, também. Não importava. Quando a porta do banheiro se abriu eu estava no meu quarto, a chamei pelo nome e ela veio. Sentou-se ao meu lado na cama e pude apreciar novamente aquele belo par de coxas. Ela viu que eu olhava suas coxas e puxou a saia ainda mais para cima, “para que você possa ver toda ela”, disse. Fiz um movimento rápido e tentei me jogar para cima de Melissa e beijá-la. Mas ela foi mais rápida que eu e num impulso pulou para fora da cama e ficou de pé.

- Não! Nem venha! Estava só te mostrando minhas pernas. Faça isso de novo e eu grito!
- Ei baby, relaxa. É que não pude resistir. Não é fácil ficar olhando um par de coxas como esse bem ao meu lado e não fazer nada. E no mais você é um bocado provocante.
- Você me acha provocante?
- E como!
- Então o que acha disso. – Ela se pôs a dançar bem na minha frente, rebolava e girava, chegando cada vez mais perto. Bem perto. Eu continuei sentado na cama encostado na parede. Ela dançava e suas pernas roçavam em minhas calças.

Deixei que ela me provocasse. Permaneci imóvel, apenas salivando e lambendo os beiços. Então quando ela ficou de costas para mim remexendo os quadris, estiquei meu braço esquerdo e alisei uma de suas coxas, entre as duas pernas. Ela jogou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Mas não houve tempo nem para que me jogasse para cima dela e novamente ela pulou para longe e virou-se olhando para mim, séria.

- Você é bem folgado, sabia? – Preferi não dizer nada. – Quer que eu grite? Eu grito. Vou até a janela e grito ‘tarado!’ bem alto. – Eu sorri para ela. – Ta rindo por que? Acha que não posso fazer?
- Sei que você é capaz de fazer. Relaxe. Estou apenas sorrindo para você.

Ela tirou um cigarro da bolsa e acendeu. – Se importa se fumar aqui?

- Não.
- Você tem um belo sorriso.
- Obrigado.
- Você toca punheta?
- Sempre que não tenho uma boceta.
- Deixa eu ver seu pinto. Me mostra como você faz.

Desabotoei a calça, desci a braguilha e pus ele para fora. Ela olhou para ele e sorriu. Manteve o olhar fixo nele por todo o tempo. Segurei o bicho e toquei uma na frente dela, suavemente. Ela olhava meu pau com curiosidade, como se visse um pela primeira vez e estivesse agradavelmente surpresa com o que via.

- Ta bom, já vi. Agora pode guardar. – Disse ela, sem tirar os olhos dele.
- Calma baby, deixa que está bom.
- Não quero mais ver isso.
- O que te incomoda, nunca viu um desses?
- Claro que já.
- Quer segurar?
- Não, guarde.
- Pegue, toca uma punheta aqui para mim. Não seja criança.

Soltei meu pau e ela se aproximou. Ajoelhou-se bem na minha frente, entre meus joelhos, segurou o bicho e mandou uma punheta. Tinha a mão macia e quente. E estava bom a valer. Já contemplava a possibilidade daquela punheta virar um boquete. Mas num pulo ela pôs-se de pé novamente e se afastou. “Agora guarde”, disse. Guardei o bicho e fechei as calças.

Ela sentou-se ao meu lado novamente e disse, “por um momento tive vontade de te beijar na boca”, “então beije”, respondi. “Agora não tenho mais vontade”, disse ela. Levantou-se da cama, pegou sua bolsa e caminhou até a porta do quarto. “Já vou”, disse ela e sumiu pelo corredor do apartamento. Levantei da cama e fui até a sala. Lá estava ela, de pé postada ao lado da porta. Tirei as chaves do bolso e abri a porta. Ela se inclinou em minha direção, deu um beijo em minha boca, disse tchau e foi embora.

A tarde caminhava para seu fim. Senti vontade de um banho. Senti-me um tolo.

No banheiro o cesto de lixo transbordava de papel higiênico amassado em pequenos rolinhos. Havia vários deles espalhados no chão também, em volta do cesto. Deixei como estava. Tirei minhas roupas e fui para o chuveiro. Não tinha sabonete. Fui até a área de serviço e peguei um pedaço de sabão para lavar roupas que estava sobre o tanque. Voltei para o banheiro e tomei um banho quente e relaxante. Esqueci que era um tolo.

Mais tarde descobri que Melissa havia deixado seu maço de cigarros sobre minha cômoda. Havia sete deles ainda. E antes de ir dormir fumei todos os sete.

domingo, 21 de julho de 2013

Tina Tarja-Preta.

Não vou dizer que foi desperdício de tempo aquelas poucas semanas em que estive com Tereza. Houve ocasiões em que pudemos travar ótimos diálogos sobre assuntos dos mais incríveis, íamos do metafísico ao cósmico numa sintonia comovente. Pena que essa sintonia só ocorria nos poucos momentos em que a encontrei com a cuca funcionando. Na maior parte do tempo Christina se apresentava completamente fora de si, numa mistura louca de nicotina, álcool, substâncias alucinógenas e remédios tarja preta. Aquela advogada engolia desses comprimidos com se fossem balinhas tic-tac, numa explosão de espasmos e frases desconexas capaz de deixar qualquer um louco estando ao seu lado. Colocava alguns comprimidos na mão e num lance jogava tudo para dentro da boca, emendando logo em seguida um caprichado gole de vinho ou cerveja. Antes disso uma boa tragada no baseado, e mais uma depois. E cigarros o tempo todo. Era de dar dó assistir aquela advogada brilhante, respeitada e requisitada, se destruindo daquela forma. O tipo de experiência aventureira que me deixa aborrecido com a vida, me sentindo como se preso dentro do vagão de trem que partiu do nada rumo a lugar nenhum.

Até poderia ter sido magnífica a última noite em que estivemos juntos. Eu estava passando uns dias na pousada de um amigo europeu que mora há alguns anos em Florianópolis. Ele havia viajado para o velho continente e me pediu que passasse esses dias morando no lugar. Uma casa luxuosa, com uma ampla sala de três ambientes, sofás de todos os tipos para todos os gostos, lareira para as noites frias e piscina para os dias quentes. Um convite às boas coisas da vida.

Nessa noite tirei o Fusca do Amor da garagem e peguei Tereza Christina em sua casa, fomos a um bar tomar alguns chopes de trigo e em seguida fomos curtir a noite na sala da pousada. Já havia deixado algumas garrafas de vinho esperando por nós. Desarrolhei a primeira e nos servimos. Acendi a lareira para espantar o friozinho que fazia naquela noite. Coloquei um show do Coldplay para garantir o ritmo da noite. Para ficar ainda melhor liguei o retro-projetor que se encarregava de lançar a apresentação da banda numa das paredes daquela sala fantástica. O baseado já estava fechado sobre a mesa e então tudo o que nos restava fazer naquele momento a gente fez, nos jogamos num dos sofás e em segundos já estávamos sem roupas, Christina sentada em cima de mim, cavalgando, me beijando, fazendo com que sua presença valesse a pena e com que nada mais tivesse importância.

Terminamos e nos vestimos, servi mais vinho. A banda tocava Trouble, então aproveitei e tirei Tereza Christina para dançar. Aquela noite estava boa a valer. Incrível. Ela havia me prometido que deixaria os comprimidos tarja preta de lado e que iríamos nos divertir para valer. E estávamos, realmente. Acendi o baseado para nos aproximarmos ainda mais do cosmo e tudo parecia irradiar uma energia impossível de descrever, apenas sentir. Abri a segunda garrafa e fomos para o outro sofá, trocar carícias e ótimas idéias, curtir a vida.

A noite prosseguia e a gente aproveitava nessa mistura de sentimentos e sensações. Num plano astral bem diferente do que aquele que a ordinariedade do dia-a-dia costuma nos oferecer. Tereza então se esticou e alcançou sua bolsa, que estava jogada no canto do sofá. Abriu e sacou três cartelas de comprimidos.
- O que você está fazendo?
- Não consigo ficar sem meus comprimidos, Alvarêz.
- Mas você havia me dito que iria deixa-los de lado essa noite.
- To de boa, vou tomar só esses, não vai rolar nada, é só para seguir a prescrição.
- Não há prescrição, sua maluca, nenhum médico iria prescrever um bombardeio de remédios tarja preta dessa forma. – Eu disse e comecei a rir. Ela, também, gargalhou e num lance encheu a boca daquelas porcarias.

Não demorou muito e Christina começou a sair de órbita. Seus olhos vidrados não se fixavam em nada, ela estava em outro lugar. Dizia muita coisa, mas nada fazia muito sentido. Puxei ela para o sofá para mais uma trepada, mas ela parecia rodopiar sobre mim, era como fazer sexo com uma entidade espiritual que acabara de se materializar à minha frente, mas que eu não conseguia alcançar um contato físico definitivo. Parecia me escapar pelas mãos. Era como se minha pica fosse a chave do portal para um novo mundo, e ali, conectados, nos lançávamos a planos longínquos. Fazíamos a ponte entre dois mundos paralelos, ela lá e eu aqui.

Depois disso as coisas foram ficando cada vez pior. Tereza Christina caminhava pela sala como um zumbi, esbarrando em tudo, e pondo em risco a sua integridade e a integridade do lugar. Pobre advogada brilhante. Restava-me ficar de olho nela o tempo todo. Até que finalmente enchi o saco de tudo aquilo e a levei para o quarto para dormirmos.

Acordamos no dia seguinte e ainda na cama fiz alguns comentários repreendendo sua atitude na noite anterior. Tereza nada dizia. Ordenei que se vestisse para que eu fosse levá-la em casa.

Entramos no Fusca do Amor e fizemos todo o percurso até sua casa sem trocar mísera palavra. Quando estávamos a cerca de um quilômetro de sua casa ela me pediu que parasse. Queria descer e ir caminhando até sua casa, para aproveitar o sol da manhã. Atendi seu pedido e “Adeus e boa sorte” foram minhas últimas palavras a ela.


Agora estou aqui, sentado no banco desse coletivo, ouvindo a conversa do casal sentado a minha frente, eles me fazem lembrar de Christina. Engraçado, pois pelo que me parece eles não se conheciam até agora. Ele entrou, pediu licença e sentou ao lado dela. E o diálogo que esses dois passaram a travar tem o mesmo tom caótico de quando eu e Tereza nos encontramos pela primeira vez, num bar. De forma irônica e autoconfiante dizíamos um para o outro coisas do tipo “quem te garante que eu não sou um maluco?” ou “eu vou possuir o seu coração” ou “vou me apaixonar por uma louca como você?” ou “e você não corre o risco de se apaixonar por mim?” ou “você insiste porque você gosta de mim”. Deu no que deu.

Nico, ela está ouvindo Nico e emprestou os headphones para que ele ouvisse, também. Pois é... E o que será que Christina anda ouvindo agora?

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Asas.


Se fosse pedir por um milagre escolheria ter asas, leves como algodão e fortes o bastante para conseguir carregar esse meu corpo pelo tempo que fosse preciso.

Acordei naquele dia e Deus! Como eu queria um par de asas que pudessem me tirar da cama. Deus, eu não passava de um pobre e sujo, bêbado incorrigível. Era fim de mês, meus proventos já haviam evaporado ao longo do mês, e as minguadas notas de Real que eu tinha no bolso deixara no bar na noite anterior.

Levantei da cama nauseado. Pronto para vomitar todo o ar fedorento do meu estômago vazio. Sai do quarto e me arrastei pela sala tentando conectar alguma idéia na cabeça inchada. Não atinava nada, e num movimento agarrei a fechadura e pulei para fora do apartamento. Desci pelo elevador e ganhei as ruas, mero impulso inútil e desesperado em busca de ar. A cabeça continuava rodando, claro, e a sensação de que o mundo em volta iria se apagar palpitava intermitentemente. Coloquei as mãos nos bolsos e caminhei cambaleante até a praça.

Havia algum tipo de manifestação em frente à praça. Sentei numa mureta que me apareceu na frente e fiquei assistindo ao protesto. Eles pediam alguma coisa e apitavam, sei lá o que era, tudo que eu pedia eram asas, nada mais. Minhas mãos continuavam guardadas nos bolsos. Me olhei. Saquei que vestia a roupa da noite passada e conclui, de forma óbvia, que a roupa que havia vestido na noite passada era a mesma roupa com que havia dormido e que continuava vestindo. A diferença é que estavam engomadas antes e agora completamente abarrotadas.

Aqueles apitos do pessoal que protestava estavam me incomodando. Levantei de onde estava sentado e segui cambaleante pelo centro da cidade.

Era onde eu morava na época, no centro da cidade. Num apartamentozinho imundo de aluguel barato. Por sorte arrumei esse apartamento justamente num ponto do centro da cidade cercado de bares, além de uma casa de massagem que funcionava durante o dia e um puteiro que abria depois das nove, de segunda a segunda.

Segui caminhando sem rumo, sei lá por que. Talvez para poder sentir-me vivo, apesar de a sensação maior era mesmo de vontade de vomitar ou morrer. Mas bêbado e medroso fiz por onde me sentir vivo.

No meio de toda aquela gente eu provavelmente me igualava ao pior mendigo daquelas ruas. Torto, abarrotado e vacilante. De repente num impulso entrei numa loja de artigos chineses a preços populares. Nem sei por que fiz isso, mas posso afirmar categoricamente que não foi uma boa idéia. A loja além de entulhada de pessoas era forrada de itens de todos os tipos para todos os lados. Aquela combinação de pessoas multiplicadas por coisas de plástico fez minha cabeça querer estourar, a ponto de quase cair bobo no meio da maldita loja. Por sorte consegui deslizar para rua. Mãos nos bolsos e testa suando.

Não demorou para que eu sentisse muita fome. Cutuquei o fundo dos bolsos e encontrei uma nota de hum Real. Era um Real, mas brilhava feito ouro frente a meus olhos. E o medo de perder aquela nota foi tamanho que a dobrei duas vezes e guardei na meia. Dali segui em direção ao supermercado para procurar qualquer coisa que eu pudesse comprar com aquela nota e que servisse para me forrar o estômago.

Percorri os corredores do supermercado. Até que no corredor das massas encontrei um pacote de macarrão espaguete em promoção por 89 centavos. Sim, um pacote de macarrão espaguete por 89 centavos! Me sentia o homem mais feliz do mundo! Catei um pacote da prateleira e segui feliz rumo ao caixa.

A menina do caixa me olhava. Pensei “quem sabe eu não aparente tão mal assim, ela me olha e talvez eu seja um cara bonito”. “Oitenta e nove centavos”, disse ela. Então me abaixei e tirei a nota de um real de dentro da meia. Nem havia percebido, mas o calor me fez suar dentro da meia e a nota de um real estava ensopada de suor. Puxei a nota com a ponta dos dedos e assim a entreguei a bela menina do caixa. Ela segurou a nota e num impulso quase soltou. Me olhou novamente e eu sorri para ela. Ela jogou a nota dentro da caixa registradora e junto da nota fiscal me entregou uma moeda de dez centavos. Pensei no um centavo, mas resolvi deixar de lado, ela já havia feito eu me sentir deveras bem com aquele jeito de me olhar, então decidi não ser inconveniente por causa de um mísero centavo. Peguei meu macarrão e voltei para o apartamento pensando nela, que talvez a deveria ter convidado para almoçar comigo.

Sai do elevador e tomei o corredor até meu apartamento. A porta estava aberta. Acho que deixei aberta quando saí, pensei. Fui até o banheiro me olhar no espelho. Uma remela indecente me ocupava o canto do olho esquerdo. Abri a torneira e lavei o rosto. “Merda” pensei “será que foi por isso que a menina do caixa não parava de me olhar? Só pode ser” concluí.

Fui até a cozinha e vasculhei o refrigerador e os armários. Encontrei meia cebola e alguma manteiga. E foi o suficiente para eu preparar uma panela de macarrão daquelas! Servi-me um prato caprichado de macarrão acebolado, tão quentinho, nossa, meu coração se encheu de amor. Quis voltar ao mercado e oferecer alguma declaração de amor aquela bela menina do caixa, recitar um poema, cantar uma canção romântica. Naquele instante entrou pela janela, de algum apartamento vizinho, um perfume maravilhoso de asinhas fritas de galinha. Deus! Como eu queria ter asas!

Por fim tirei os sapatos e voltei para cama, torcendo que os próximos três dias passassem voando para enfim chegar o dia do pagamento.

domingo, 2 de junho de 2013

Vômito apaixonado.

O telefone tocou e era Dududu dizendo que Talita e Júju estavam com ele, que havia comprado vinhos e cigarro, e que estavam pensando e ir lá para casa. Eu disse, tudo bem.

Dududu andava louco para torrar sua coisa dentro de Talita. Eu andava louco para torrar minha coisa dentro de Talita, e de Júju, e de qualquer outra mulher. Sempre com essa coisa bêbada e suplicante vibrando no meio das pernas.

Era tarde da noite e não demorou até que Dududu, Talita e Júju batessem à minha porta. Na época eu morava no segundo piso de uma casa, no centro de Garopaba, onde o senhorio morava no andar de baixo. Uma casinha de um quarto, cozinha e banheiro. Ensolarada e bem ventilada. O lugar mais decente que havia morado nos últimos anos. (o único lugar decente, para dizer a verdade.)

A noite seguia daquela forma que você imagina. Bebida, conversa, bebida, risada, bebida, música, bebida, cigarros, bebida, bebida, bebida. Duas picas, duas vaginas, e toda a milenar história do relacionamento entre homens e mulheres sendo recontada de novo e de novo.

O telefone tocou. Era o senhorio pedindo gentilmente que fizéssemos menos barulho. Tudo bem, disse eu. Quando desliguei, Dududu estava segurando uma das mamas de Talita e beijando forte na boca. Júju estava deitada no chão com aquelas duas pêras apontando para o alto. Pulei para cima dela e beijei sua boca. Depois pus ela sentada, peguei uma garrafa cheia e encostei o gargalo na sua boca. Ela fez biquinho e eu virei a garrafa. Deixei que dessa uma boa mamada e foi minha vez de beber. Júju me dizia umas coisas ao ouvido, mas eu não entendia nada do que ela dizia. Talvez estivesse pedindo que a beijasse novamente, ou que encostasse meu dedo médio em sua vagina, ou que queria ir ao toalete urinar, e eu não estava a par de nada disso. Resolvi pagá-la pelo braço e levar para o lado de fora.

Lá fora prensei Júju contra a parede e beijei sua boca. Dei um apertão no seu rabo carnudo e ela gemeu. Júju desfez o beijo e me falou novamente ao ouvido, dessa vez pude entender o que dizia. Quero vomitar! Que bom, porque eu também queria e assim sendo poderíamos vomitar juntos. Segurei-me em uma pilastra, estiquei a cabeça e mandei um jato de vômito, lá embaixo, na porta do senhorio. Júju fez como eu fiz e mandou seu jato, também. Segurei em sua mão e disse a ela que se abaixasse e se apoiasse na mureta da escada. Fiz com que entendesse que eu já tinha enxurradas de vômito de experiência, e que agindo daquela forma ela vomitaria mais tranqüilamente. Ela se abaixou e eu abaixei junto com ela, nos apoiamos na mureta e vomitamos juntos. Um pouco do caldo escorreu sobre seus cabelos. Peguei-os e ajeitei sobre seus ombros. Ela tinha cabelos tão lindos e sedosos, tão perfumados. Vomitamos juntos, novamente. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Abracei-me a ela. Novamente despejamos um jato de vômito, lá embaixo. Chuááá... Esta se sentindo melhor? Ela balançou a cabeça afirmativamente e despejou mais um, e eu outro. A madrugada era fria e estrelada. Ela se abraçou a mim e ficamos assim, comoventemente juntos, aquecendo um ao outro, vomitando.



Dududu e Talita moram juntos. Júju desistiu de Alvarêz e se especializou em homens casados. Alvarêz continua gostando de torrar sua coisa dentro de uma carne quente de mulher. E a vida segue.

sábado, 11 de maio de 2013

Gostosa e fumegante.

A tarde de sábado ia lá por seus meados, quando lhe atacou a diarréia. O negócio voltou no dia seguinte, mais forte, debilitante. Estranhamente, foi só na quinta-feira subseqüente que a vontade voltou a corteja-lo, mas dessa vez veio como de costume, de aparência saudável, boa textura, apesar do tamanho. Ledo, então, passou a mão no telefone e discou.

- Pizza-rápida, boa noite!
- Ei, uma gigante de mussarela.
- Onde?
- Travessa Lua Bonita, 145.
- Certo, em dez minutos.
- Ok.

Ledo foi até o refrigerador, puxou uma lata e foi com ela até o sofá. Já havia alcançado meia lata, quando sentiu vontade de cagar. De novo. Correu até o sanitário, baixou as calças, sentou e deixou o negócio fluir. E vinha, vinha, vinha. Muita coisa. A campainha tocou uma vez. Ledo berrou lá do banheiro, "aguarde!". A campainha tocou pela segunda vez, "ei! Só um minuto!". A campainha tocou pela terceira vez e Ledo resmungou, "merda".

Quando, enfim, conseguiu livrar-se de todo o dejeto, correu até a porta, mas já não havia mais ninguém. Foi até a sala, puxou o gancho e discou, novamente.

- Pizza-rápida, boa noite!
- Minha pizza gigante de mussarela!
- Senhor, nosso entregador esteve no endereço indicado, mas...
- Sim, foi o sanitário, você entende, esse quando chama não tem como escapar.
- Ó, sim senhor. Sua pizza chega num instante.
- Ok.
- Senhor?
- Sim?
- Está se sentindo bem?
- Melhor que há dez minutos atrás.
- Faz sentido, uma boa noite.
- Obrigado.

Foi num instante, matou a outra meia lata e a campainha tocou. Ledo foi rápido até a porta e lá estava o entregador com sua pizza.

- Sua pizza.
- Obrigado.
- Estive aqui ainda pouco, toquei três vezes, mas ninguém atendeu.
- Sim, foi o sanitário, você entende, esse quando chama não tem como escapar.
- Compreendo.
- Tome, e fique com o troco.
- Obrigado, boa apetite.
- Obrigado.
- Senhor?
- Sim?
- Está se sentindo bem?
- Com bastante fome, mas logo passa.
- Com certeza.
- Obrigado.

Ledo levou a caixa até a cozinha e pôs sobre a mesa. Tirou a tampa e lá estava ela, amarela e fumegante. Água na boca. Buscou duas latas no refrigerador, prato-garfo-faca no armário e serviu-se.


Era início de madrugada. Ledo sesteava sobre o sofá da sala, pernas esticadas sobre a mesa de centro, cachimbo aceso em uma das mãos e uma lata na outra. Soltou o cachimbo e pegou um jornal de dias, que estava jogado no chão. Abriu nos classificados. Procurou pelos anúncios de meninas de programa. Sheila, Dani, Katy, Soraya. Olhou o número, passou a mão no telefone e discou.

- Olá.
- Quem fala.
- Soraya, toda sua.
- O Nilson está?
- Não tem nenhum Nilson aqui, querido.
- Não? Quem fala?
- Soraya.
- Você é mulher do Nilson?
- Não tem nenhum Nilson aqui!
- Esse número é do Nilson.
- Não enche! - Clek.

Paula, Luci, Flávia, Vanessinha. Deu uma boa virada na lata, passou a mão no telefone e discou.

- Olá.
- Quem fala?
- Soraya.
- O Nilson está?
- Qual é cara? Ta querendo tirar uma?
- Mas esse número sempre foi do Nilson. Ele não está?
- Estou eu e minhas amigas. E você está atrapalhando nosso trabalho.
- É um call-center?
- Não querido, somos garotas de programa... Que tal?
- Ah... Pode ser. Você vem até aqui?
- Qual o endereço?
- Travessa Lua Bonita, 145.
- Em dez minutos estarei aí.
- Nossa, tudo nessa cidade chega em dez minutos.
- O que disse?
- Esqueça, estou esperando.
- Escute...
- Sim?
- Está se sentindo bem?
- Cheio de tesão, venha depressa!
- Já estou saindo.
- Obrigado!

Dez minutos depois a campainha tocou. Ledo levou Soraya até o quarto e pôs sobre a cama. Tirou sua roupa e lá estava ela, amarela e fumegante. Água na boca. Buscou duas latas no refrigerador, preservativos no armário e serviu-se.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Não abra mão de uma fodinha.

- Amor?
- Sim?
- Soltei um peido.
- Ó, tudo bem, não me importo. Todos nós fazemos isso.
- Sabe que eu te amo?
- Sim, querida. Também te amo. Venha aqui. Quero dar uma foda em você.
- Já demos uma dessas duas horas atrás.
- Mas quero dar outra, uma fodinha, venha.
- Você sempre quer dar "fodinhas!", por que não acumula essas suas fodinhas para uma grandiosa foda daqui a dois dias? Assim você acaba banalizando nossas trepadas.
- Amor, deixe disso e venha, tenho algo louco por fazer um rebuliço aí entre suas pernas.
- Era assim, também, com Elizabete? Seguidas "fodinhas"?
- Era.
- Mentiroso! Elizabete me contou de suas "trepadas monumentais", como ela mesmo definiu.
- Por que você tem sempre que falar em Elizabete? Ela já era. O quente agora é você!
- Você fala de uma maneira como se eu fosse uma vagabunda.
- Você é que sempre encontra argumentos para entrar em um bate-boca!
- Você não falava assim comigo quando estávamos namorando.
- Você não criava discussões quando estávamos namorando!
- Você fala como se a culpada disso tudo fosse eu.
- Você é a culpada disso tudo!
- Seu imundo! Como pode! Vá embora! Saia da minha frente!
- Sua maluca! - Disse ele, pegando as chaves do Volks e saindo porta afora. Entrou no carro, deu partida e seguiu guiando pela cidade. Meia hora depois parou em frente a um telefone público. Colocou o cartão e discou. - Elizabete, sou eu... Sim, tudo. Quer dizer, ela me colocou na rua novamente... Sim eu sei, mas o que posso fazer?... Esqueça isso... Escute, que tal uma fodinha?... É? Em oito minutos estarei aí.